Opinião
Tardam, mas n�o faltam
Ditado do tempo de meus avós serve de lembrete para prevenir os efeitos de trovoadas que estão por vir, sabe-se lá se em curto ou médio prazo, encadeadas com parâmetros dinâmicos da atmosfera, vários conhecidos pelo homem, outros não. Por mais que avancem os estudos de ciências atmosféricas, por mais perfeitos que sejam os softwares destinados a prever o tempo e o clima, muito ainda falta aprender com a natureza, com a ?ciência? popular já sob pesquisas em outros Estados e aqui esquecidas pela antropologia cultural. Não se sabe explicar vários indícios de chuvas distantes, ou próximas, tais como o florescer do juazeiro, da quixabeira, ou do mandacaru, nem entender o porquê de os maribondos fazerem suas casas sob telhados, de as formigas se mudarem com suas crias para lugares abrigados, ou a razão de o joão-de-barro, assim como a abelha arapuá, direcionarem para o poente a entrada do ninho em anos chuvosos, para o nascente em anos secos. Durante 50 anos na lida com terras sertanejas tenho observado que os indícios são coerentes, sem precisão absoluta, é verdade, como também há falhas usando os computadores. Fala-se em redução do volume de chuvas no mundo decorrente de mudanças climáticas geradas pelo buraco na camada de ozônio, no aquecimento global da Terra, e se veem verdadeiros cataclismos ? enchentes, furacões, secas, terremotos, erupções vulcânicas, El Niño e La Niña ? que se amiúdam a cada década. Constata-se que o volume anual de chuvas permanece o mesmo, com má distribuição temporal e espacial, assunto que embasa esse alerta aos que detêm poder decisório. Um evento climático anômalo, previsto para atingir o Recife há cerca de seis meses, se deslocou para o sertão de Pernambuco onde as chuvas caíram sobre a malha de açudes já cheios e escoaram para a rede de rios e riachos que, por aqui, deságuam nas lagoas Mundaú e Manguaba gerando a tragédia cujo rastro de destruição ainda se vê. Mantenhamo-nos em estado de atenção porque a natureza está devendo chuvas em volume substancial e elas devem ocorrer sabe-se lá quando, podendo atingir Maceió carente de um plano de drenagem para mapear rios, riachos, galerias de águas pluviais e rede de esgotos, além de uma carta geotécnica para registrar encostas e áreas de risco. Como engenheiro perito já vistoriei diversos edifícios com garagens inundadas por águas que esguicham de pisos e poços de elevadores, aparentando fluírem de ruas mal drenadas, mas são oriundas do lençol freático que se eleva cerca de dois metros sob chuvas intensas. As trovoadas tardam, mas não faltam. (*) É engenheiro civil e consultor.