Opinião
A arte e sua influ�ncia na medicina
Nesse domingo tive a alegria de manter uma longa conversa com um colega versado em arte, pintura e música. De início, falamos sobre uma expressão antiga: a arte de curar. Assim era conhecida a medicina da antiguidade; os conhecimentos médicos eram baseados na experiência, no dia a dia, na observação. Nessa época, a atividade médica, a cura das doenças, era considerada coisa extraordinária e quase sobrenatural. Se remontarmos à Grécia ? a medicina mais organizada do passado ? a loucura e doenças nervosas eram tratadas através de atos cirúrgicos, perfuração dos ossos da caixa craniana. Verdadeiras obras de arte experimentais. Dizia esse colega médico: ?Há uma estreita ligação entre a medicina e as artes. A medicina não é ciência normativa, e sim arte aplicada, em seu conceito mais amplo?. Encontro num trabalho literário do professor Hélio Begliomini: ?se a medicina é uma arte, o seu protagonista só pode ser um artista?. Explica: ?conviver diuturnamente com a doença e com o doente, suas dores e limitações, humanizando a vida, é tarefa somente para um artista?. Médicos-artistas, infelizmente, não são muitos. Embora trabalhos artísticos de médicos tornem-se, muitas vezes, do melhor padrão estético. Fiquei admirado com as obras produzidas pelo colega a que me refiro. Muita rebeldia contra padrões estabelecidos, fuga de escolas formais, talento e poder de criação. Tudo isso traduzido nas telas das pinturas e nas notas das melodias. No início de minha vida profissional participei de algumas aulas de pintura, embora não acreditasse em possibilidades pessoais nesse campo. Não cheguei a uma conclusão: o tempo curto, atividades profissionais cada vez mais abrangentes não me permitiram continuidade. Lembro alguns conselhos do mestre: ?inspiração e transpiração, inspiração e esforço, fazem alcançar um objetivo maior?. De certa feita, repeti uma de suas opiniões: ?o excesso de tintas não conduz a um bom colorido, ele depende da pincelada justa?. O realismo da prática médica, o acerto indispensável, a tensão e o estresse pedem preciosas horas de lazer que podem ser aproveitadas em atividades artísticas, literárias e culturais. A psicanálise (que muito ajuda nosso desempenho) invadiu o teatro, o cinema e a literatura, em muitas de suas conceituações. Muitos dos novos currículos dos cursos de medicina já incluem disciplinas de literatura e arte. Opinião do cirurgião plástico Ivo Pitanguy: ?A arte humaniza a vida. As artes ajudam a manter a humanidade da medicina, já que a ciência e a tecnologia têm nos distanciado da indispensável relação médico-paciente?. (*) É médico.