Opinião
Referencial
WALMAR BUARQUE* ?O verdadeiro valor de um homem não pode ser encontrado nele mesmo, mas nas cores e texturas que faz surgir nos outros.? Já há algum tempo, venho percebendo o mal que faço as estruturas governamentais do terceiro e quarto escalões, os quais foram confiados os interesses do Estado ou do município, enfim, do poder sobre os meninos e meninas de rua. A partir desta constatação de que essa problemática tão próxima de todos nós está nas mãos de pessoas que ocupam esses escalões de Poder, vê-se que ainda não levam a sério esse problema. E é aí que começam a surgir os confrontos e conflitos. Em encontro com a Drª Selma Aragão, advogada premiada pelo Unicef, que esteve em Maceió recentemente, numa visita ao Catarse ela se referiu a um de meus artigos publicados aqui na GAZETA DE ALAGOAS. Entre elogios e apoio ao que se referia o citado artigo, lamentava a falta de entendimentos e entrosamento entre governo e ONGs na prática de uma política pública de ações realmente decisivas para a solução do problema menino de rua. É aí que percebemos que o individualismo governamental coloca uma barreira de proteção em torno do seu espaço, e abrir às ONGs para entrar em contato com pessoas diferentes, não manipuláveis, com idéias próprias e independência política, seria diminuir esse espaço protegido pela falta de vontade política de resolver uma questão fácil de administrar: seria permitir que outros desmascarem a problemática e que venham definitivamente resolver a questão, participando de forma voluntariosa e desmistificando o problema e identificando as causas da sua manutenção. No caso específico do Projeto Catarse, vocês não imaginam os sacrifícios e as necessidades do dia-a-dia nas nossas ações. Falta de tudo, desde alimentação à remuneração dos técnicos contratados. Os recursos hoje disponibilizados para o Catarse vêm do Cidadão Nota 10 e do Projeto Rua, e ambos são recursos carimbados para serem usados em reforma, construção e compra de bens permanentes, proporcionando ao Projeto condições de ampliar o atendimento. Mas como aumentar despesas se não temos como pagar alimentação, salários, luz, água, taxas, serviços etc... Mas, mesmo assim, estamos ampliando, e cada vez mais atendendo a um número maior de adolescentes, com reconhecimento de todos. É preciso, é urgente a humildade de convidar os parceiros para resolver as questões que preocupam nossa população, não dessa forma piegas e demagoga de fóruns, debates, discussões de como fazer. É definitivamente entregar aos que fazem efetivamente ações comunitárias os orçamentos destinados aos carentes, as ações sociais, desativando de uma vez por todas essas máquinas estatais inchadas, ineficientes que só se mantêm com a manutenção da miséria, da mendicância e do abandono de milhares de alagoanos. O Estado seria um avaliador e um fiscalizador das entidades que se propuseram e têm condições extrareligiosas e políticas de atenderem aos que lhes procuram em busca de ajuda para serem educados, recuperados e reintegrados à sociedade. É fundamental para qualquer governo que venha em 2003 que o diálogo e a transferência de poder sobre os problemas sociais também sejam com as ONGs, pois a continuidade dessa distância só nos manterá - as ONGs - como referencial, diante da incompetência e descaso do poder público para a problemática, com uma política mesquinha e mantenedora da miséria e abandono dos meninos e meninas de rua. Leia outros artigos no site www.catarse.org.br e mande e-mails dando sua opinião pelo [email protected] (*) É coordenador do Projeto Catarse