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Opinião

Del�rios delirantes... (1)

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Recentemente li uma entrevista na sempre antirreligiosa Revista Veja com o, digamos assim, ?filósofo? Sam Harris, um americano que com outros três exasperados ateus (Daniel Dennet, Richard Dawkins e Christopher Hitchens), ocupa-se de combater a ideia de Deus, de religião e, de modo particular, o cristianismo. Fiquei perplexo com o nível da reflexão e das afirmações do senhor Harris. Definitivamente, o ateísmo já teve defensores mais dignos e inteligentes. De todas as sandices que o entrevistado apresentou, o que mais me impressionou foi constatar a incapacidade de aprender com a história, de refletir com sabedoria e certa objetividade sobre o passado. Harris atribui o atentado contra as torres gêmeas à religião. O problema do fanatismo religioso no Oriente Médio é muito mais complexo. Colocar a questão simplesmente como religiosa é, no mínimo, ignorância e, no máximo, má-fé. Esqueceu do colonialismo europeu do século 19, inspirado precisamente por certa ciência, em nome do darwinismo social, dos interesses econômicos vinculados ao petróleo e ao gás, bem como às questões geopolíticas... Esqueceu que as religiões são muitas vezes promotoras da paz e da tolerância e que o conceito de pessoa, tão importante na tradição ocidental, é de matriz religiosa cristã... Associar pura e simplesmente religião à intolerância, obscurantismo e violência é de uma má-fé deplorável! Poderíamos fazer o mesmo com a ciência! Ou não foi em nome dela e da razão que tivemos as justificativas para a morte de milhões de pessoas, fazendo do iluminado e racional século 20 o mais cruento e cruel de toda a história humana? É necessário cuidado no manejo de certas afirmações. O nosso autor afirma que ?através das eras, os dogmas contribuíram para a miséria humana de maneira tremenda e desnecessária?. A afirmação é simplória. Os dogmas também foram causa de coesão social, de segurança e paz para as pessoas, de consolo e capacidade de uma abordagem positiva da realidade. No caso do cristianismo, a fé num Deus único, bom e salvador, foi base para a afirmação da dignidade da pessoa humana, do respeito pela consciência, da promoção da paz, do desenvolvimento científico, enquanto afirmava que o homem tem o encargo de governar a terra, etc. É preciso não confundir o dogma com o desvirtuamento dele, a religião com os usos aberrantes que dela se possam fazer. O mesmo vale para a ciência e para a razão humana. Foi inspirado no racionalismo que Robespierre instituiu o terror na França; foi com os recursos da ciência que se matou milhares com gás venenoso na I Guerra Mundial, na Guerra do Vietnã, que se encontrou a solução final para os judeus nos campos nazistas e que se eliminou duas cidades japonesas. Nem por isso se pode dizer que a ciência é um mal. É incrível como o autor pareça nunca ter estudado filosofia da ciência e afins! Continuarei no próximo domingo. Deus me perdoe pelo tempo gasto analisando ideias tão rasas... (*) É bispo auxiliar de Aracaju - SE

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