Opinião
� tempo de delicadeza
A primeira carta de São João em 4,8 afirma: ?Deus é amor?. Essa afirmação é a síntese da mensagem proclamada por Jesus. Podemos dizer que a expressão concreta desse ser ? amor, que é o próprio Deus, é a delicadeza. Revisitando todo o percurso da revelação bíblica, descobriremos que o modo de agir de Deus inaugura no mundo o tempo da delicadeza. Deus vem mostrar quem Ele é, evento iniciado com Abraão e plenamente realizado em Jesus. E em todo esse caminho, Deus não entra na vida dos homens de qualquer jeito. Deus tem seu jeito de se fazer amigo, tem suas etapas e ritos no processo de conquistar o coração humano. Se Deus por primeiro nos amou assim, com delicadeza, nós também devemos agir dessa maneira (cf. 1Jo 4,11). Comumente, os cristãos afirmam não haver verdadeira humanização sem a conversão a Cristo, expressão máxima e concreta da delicadeza de Deus. Pois bem, essa humanização implica expressar nossa vida na delicadeza em relação a Deus e ao próximo. Mas, afinal, o que é esse tempo de delicadeza? É a capacidade de contemplar a criação e as pessoas não como um dado evidente, mas como realidades a serem conquistadas a cada dia. Aqui é fundamental o papel dos ritos. Ritualizar a vida não é sinônimo de mecanizá-la ou manipulá-la. Pelo contrário, o rito devolve a sacralidade à realidade, restaurando-lhe a sua dimensão mistérica. A criação e as pessoas são um mistério inesgotável inscrito no coração do próprio Deus. E para desse mistério nos aproximar, precisamos dos ritos. O rito longe de se apossar da realidade, revela o nosso assombro permanente diante do dom da vida. A ritualidade, expressão e manifestação da delicadeza, revela-se no processo de conquista das pessoas, seja no amor, seja na amizade. Precisamos de encontros, palavras, gestos, intervalos, ausências, permanências, cuidados, pequenas atenções, tempo e contratempos para irmos adentrando na vida do outro. Agir de outra forma é violentar e desrespeitar a singularidade humana. Mas não somente no processo de conquista se expressa a delicadeza humana. No processo de permanência na vida dos outros o rito deve se fazer presente. É o rito que mantém o aspecto lúdico da amizade, conserva os casamentos na novidade do primeiro encontro, mantém os laços familiares no respeito mútuo. Enfim, o rito devolve-nos a capacidade de ver a beleza sempre oculta e sempre pronta a ser descoberta dos amigos, namorados, esposos, familiares. Assim conhecemos se experimentamos a delicadeza do amor de Deus: se ajudamos a inaugurar aqui o tempo da delicadeza. Retiremos o rosto amoroso de Deus do mundo, e seremos pobres na ritualidade da delicadeza; seremos violentos. (*) É seminarista e psicólogo.