Opinião
Acessando direitos
Proponho que iniciemos o ano pensando em direitos, claro, sem esquecer os deveres que naturalmente formam a via de mão dupla da tão necessária cidadania. Este fim de ano foi propício para deflagrar diversas inadequações para a tão sonhada sociedade mais justa que almejamos. E a acessibilidade de portadores de necessidades especiais é uma dessas inadequações gritantes. O próprio termo acessibilidade detém uma sonoridade que torna ainda mais justo seu significado: permitir que uma pessoa com deficiência participe de atividades realizadas na sociedade da qual faz parte. Um conceito simples, mas de abrangência complexa, pois requer uma maturidade dos tomadores de decisões, empresários e, principalmente, da própria sociedade. Podemos dizer que essa questão tem sido mais detidamente pensada na última década, onde a arquitetura moderna toma o primeiro e enriquecedor posicionamento. Não é à toa que a acessibilidade está diretamente ligada ao direito fundamental de ir e vir. Porém, se levarmos em consideração que isso está sendo pensado há tão pouco o tempo, podemos imaginar como era ainda mais difícil a vida dos cadeirantes e outros portadores de necessidades especiais. Um bom exemplo disso é o fato da deputada federal Rosinha da Adefal não ter a acessibilidade à tribuna da Câmara Federal, mesmo já tendo outros integrantes da bancada na mesma condição. Talvez isso garanta, pela repercussão que teve, que direitos básicos de uma ponderável parcela que necessita de produtos e serviços mais especializados sejam assegurados. É necessário adequar-se aos reclamos da contemporaneidade, nas necessidades de mudança, num pais de tantas injustiças sociais. Contudo, as dificuldades dos que precisam de uma atenção diferenciada não para por aí. A tão falada inclusão na área da educação precisa de mais luz sobre uma imensa escuridão. E aí entram, também, outras categorias que necessitam de apoio nas áreas físicas, mentais ou de deficiência visual e auditiva. Também é verdade que as tecnologias inclusivas têm avançado significativamente. Mas, a meu ver, a maior carência é a de material humano melhor preparado para os desafios dessa nova sociedade que se pretende alcançar, de compreensão para problemas que atingem mais de 24 milhões de brasileiros, na necessária incorporação aos mercados de renda, educação e sobrevivência. O especialista Steven Dubner afirma: ?O Brasil está 20 anos atrasado em relação à atual situação dos portadores de deficiência; em média, cada bairro, de cada cidade, tem 10% de sua população com deficiência física?. É um assunto que merece reflexão. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.