loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Reforma ortogr�fica em Portugal: castigo 254 anos depois

Ouvir
Compartilhar

Considerado o dono da língua, Portugal se vê obrigado a reformar o modo de escrever após um acordo entre o Brasil e os países da mesma fala. A mudança inicia em 2011 e deverá levar pelo menos uns seis anos até a completa adaptação. Da mesma forma que o Brasil, gramáticas, dicionários e toda a sorte de livros didáticos deverão ser modificados, além das futuras impressões literárias. As alterações serão introduzidas nas escolas já esse ano, a partir de setembro, quando começa o novo ano letivo. Apreciando-se o tema com vagar percebe-se que a reforma beneficia a fonética em detrimento da etimologia. Em Portugal, por exemplo, ao tirar o ?c? do vocábulo facto, ignora-se sua origem, cria-se um substantivo de uso vulgar ?fato? que significa terno (o paletó). Mas essa é apenas uma de muitas outras particularidades que roubarão a essência do modo de escrever português. Mudar uma língua por decreto é uma insensatez tão grande que não se compreende o aval da Academia Brasileira de Letras. Sobretudo, levando-se em conta que o nivelamento atende bem mais os interesses do Brasil do que de Portugal. Uma reforma deveria servir para institucionalizar o modo corrente de falar de um povo e não para muda-lo. São países diferentes com culturas diferentes internalizadas na mente e no coração.A reforma descegoela abaixo feito um sapo. O sapo que dança na propaganda da Portugal Telecom ou do google português é chamado também de sapo. Parece até castigo, um castigo que chega 254 anos depois. Foi precisamente em 1757 que o rei de Portugal Dom José 1º assinou uma provisão acabando com a chamada Língua Geral do Brasil e obrigou a se falar e ensinar o português, ao invés do tupi guarani ou o tupinambá. Até então a língua indígena era a língua oficial, institucionalizada pelos jesuítas, a qual Anchieta chegou a compor uma gramática. A adoção da língua aborígene durante o período de colonização se deu, principalmente pela relação, inclusive marital entre as mulheres índias e os portugueses. Era a língua da conversão ao Cristianismo que os jesuítas utilizavam. Foi assim que após a expulsão destes, o Brasil passou a falar definitivamente o português. Uma língua que aos poucos temperada pelo acento africano e pelo maneirismo brasileiro ganhou uma sonoridade tão diferente da língua de Camões. Enquanto isso Portugal já arranhado pela influência moura e pelos vizinhos de raízes românica, se vê agora numa encruzilhada entre a diversidade étnica que vive atualmente e a coerção da revisão ortográfica. (*) É escritor.

Relacionadas