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O melhor dos mundos

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O Velho Testamento registra a fúria de Deus em pelo menos duas oportunidades: no Dilúvio, quando a humanidade foi salva graças à família do abnegado Noé. Precavido, o bom Deus ordenou que um casal de animais de cada espécie embarcasse na arca e assim garantisse o equilíbrio do ecossistema. Numa outra manifestação de poder, Jeová despejaria sua ira naquelas pobres criaturas de Sodoma e Gomorra, condenados à morte pela opção sexual. De quebra, transformaria em estátua de sal a companheira de Ló, o sobrinho predileto do pai Abraão. Não se pode dizer que não houve prévio aviso. Tecnicamente, é inaceitável um Deus com subterfúgios. Mas Yaveh não era só ameaças e castigos. Cuidou do seu povo na travessia do Mar Vermelho e na caminhada pelo deserto. Na fome, deu o maná; na sede, o cajado do velho Moisés brandiu duas vezes para tirar água do lajedo. Mas a humanidade precisava de algo mais. E foi aí que chegou o Messias tão esperado para nos salvar da ruína do pecado original, culpa tatuada no DNA da nossa alma pelos inaceitáveis desvios morais de Adão e Eva. O Filho pregou o perdão, a tolerância, o amor. Foi duro com os ricos, fariseus e poderosos: ?É mais fácil um camelo entrar numa agulha que um rico penetrar no céu?. Abominou o pecado, mas acolheu o pecador. Perdoou Madalena, a prostituta devassa, impedindo seu apedrejamento; fez cegos verem a luz e aleijados abandonarem a muleta e a cadeira de rodas. Curou leprosos. Mais que isso, ressuscitou mortos e, por fim, voltou para os braços do Pai. A humanidade evoluiu e cortou a ligação direta com os homens. No século 18, Lisboa era vítima de uma catástrofe que mataria milhares de pessoas. Ironicamente, os tremores e o devastador tsunami que se seguiu ocorreram no Dia de Todos os Santos, no exato instante em que boa parte da população prostrava-se em orações nas inúmeras igrejas lisboetas. Apenas 20% da cidade ficariam de pé. Naquela época se dizia que ?se vivia no melhor dos mundos, sob as bênçãos de Deus?. A desgraça que se abateu sobre a pequenina e religiosa capital portuguesa ensejaria manifestações as mais diversas. A primeira delas, a mais cândida, assegurava que a miséria não foi maior porque anjos acorreram. Outras, nem tão favoráveis, concluiu-se que ?o melhor dos mundos? era uma fantasia dos aquinhoados. A segunda conclusão, mais dura de se ouvir, foi a que Deus não seria tão bom quanto alguns queriam que fosse, além de não estar tão atento ao destino dos viventes. (*) É médico e escritor.

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