Opinião
A heran�a maldita
A Rede Globo mostrou o caos na saúde em Rondônia:os dois maiores hospitais públicos superlotados, com pacientes no chão pelos corredores,esperando por cirurgias há meses. Depois, mostrou um grupo de ?técnicos? do Ministério da Saúde inspecionando estes hospitais com aquele ar blasé de quem já viu aquilo incontáveis vezes, se acostumou com aquela desgraça e tenta disfarçar, sabendo que está apenas fazendo figuração no circo de horrores que é a saúde pública brasileira. Distante dali, uma comissão legislativa visitou o maior hospital público de certa metrópole e lavrou este relatório: ?A situação é de caos total. No Centro de Material Esterilizado, por exemplo, as duas máquinas responsáveis pela limpeza do material cirúrgico do hospital estão quebradas. Bisturis, tesouras e pinças são lavados e secados manualmente. Os funcionários da instituição contam que os elevadores de carga do hospital não funcionam. Por isso,os materiais, além da comida e roupa de cama, passaram a ser transportados no único elevador em funcionamento, que deveria ser destinado apenas ao transporte de pacientes e corpos?. O Hospital é o de Base de Brasília (HBDF), o maior hospital público da capital federal. No HBDF observa-se que existem dezenas de aparelhos modernos encaixotados há mais de dois anos, empilhados nos corredores, enferrujando. A precariedade do setor responsável pela limpeza dos materiais usados em procedimentos cirúrgicos fez o hospital perder o credenciamento do Ministério da Saúde para fazer transplantes. E pelas deploráveis condições gerais perdeu o título de ?Hospital de Ensino?. Esta situação caótica espalha-se pelo País: em Fortaleza, a espera dos pacientes por cirurgias e próteses ortopédicas é tão grande e a demora pelo procedimento é tão longo, que um juiz federal proibiu que a Secretaria Municipal de Saúde realizasse eventos festivos enquanto esta dramática situação não fosse minorada. Em Alagoas, o Hospital Geral do Estado luta bravamente para dar conta de uma demanda extremamente superior a sua capacidade resolutiva. Como não poderia deixar de ser,a situação é semelhante aos outros grandes hospitais públicos do País. Não se pode negar: o sistema de saúde público caótico é um legado do governo anterior, que continua no poder. Junto com uma política externa que privilegiava ditadores e regimes tirânicos, é uma herança maldita, que a presidente Dilma Rousseff herdou com outras políticas públicas desastrosas, como o descaso na ocupação de encostas e ausência de obras preventivas, que levaram a mais esta tragédia. (*) É médico e professor da Uncisal.