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Minha irm�, Lygia

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Fomos apenas duas, as filhas do casal Zenaide e Manoel Candido Fernandes. Uma razoável diferença de idade nos separava; quatro anos e meio, sendo minha irmã, a mais velha. Era obediente e estudiosa, para grande satisfação de meus genitores. Minha irmã foi das poucas mulheres de sua época a frequentar uma universidade. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, nesse tempo havia separado o curso de engenharia do de arquitetura em duas faculdades. Então minha irmã participou da primeira turma de arquitetura da referida escola. Com ela havia apenas mais uma mulher, Pina. Ambas, inteligentes e preparadas, competiam o primeiro lugar. Teve como colegas alguns arquitetos conhecidos como: Israel de Barros Correia, alagoano, e Sergio Bernardes que se tornou nacionalmente famoso. Minha irmã era uma artista. Gostava de pintar, fazer gravuras e adorava ler. O estudo de piano fez parte de nossa educação. Mas não nos tornamos exímias pianistas. Sua carreira, como arquiteta, foi brilhante. Dentre outros trabalhos, projetou nossa casa na Av.Fernandes Lima; a de Dr. Paulo Neto, na mesma avenida; a de Odette Pedrosa na Av. Moreira e Silva; a residência do Eng. José Carlos Maranhão, também no Farol e a sede da Sociedade Alagoana de Medicina. Concorreu para o projeto do Jockey Club do Rio de Janeiro e todos esses trabalhos foram publicados nas revistas: ?Architecture d?aujourd?hui?, ?Casa & Jardim? e numa outra revista japonesa do gênero. Eram os primeiros trabalhos usando os traços da nova arquitetura criada pelo francês Le Corbousier, em Paris, onde o concreto armado proporcionava a possibilidade de ousadas formas nas edificações. Seus contemporâneos que foram: Lúcio Costa e Oscar Niemeyer assombravam o público com o atrevimento de seus prédios. Sobretudo quando construíram Brasília. Lygia trabalhou por longos anos na Prefeitura do Distrito Federal e no Departamento de Estradas de Rodagem do Rio de Janeiro, onde habitou grande parte de sua vida. Vinha a Maceió, apenas de férias. Era uma viajante habitual, conhecendo quase o mundo inteiro. Não casou. Viveu dedicada ao trabalho e à família. Há quatro anos mudou-se para Maceió. Vivia na orla da Ponta Verde, de cuja varanda, admirava a beleza de nossos mares e dormia ouvindo a música acalentadora de nossos coqueirais. Encantava-se com isso. No silêncio que impôs a si mesma, sua vida se resumia no convívio da família. Meu filho mais novo cuidava dela. Com 91 anos gozava de boa saúde. Tínhamos a impressão de que chegaria aos 100 anos. Mas no dia primeiro de janeiro, ela arriou o rosto para um lado e como uma vela que se extingue ao soprar do vento, se apagou para sempre, deixando saudade! (*) É membro da Academia Alagoana de Letras.

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