Opinião
Neglig�ncia farta
Segundo um dos mais conhecidos jornais do mundo, o francês Le Monde, a tragédia na região Serrana carioca ?ilustra a negligência criminosa de algumas autoridades (...). Por demagogia ou interesses eleitorais, eles deixaram que o concreto tomasse os morros, ou mesmo encorajaram a especulação imobiliária? segue o artigo francês, acrescentando que ?este foi o 37º deslizamento de terra no Brasil em menos de dez anos?. Mesmo em se considerando demasiado agressivos alguns termos do texto, é evidente que a ferida é essa. O dedo pode estar indo fundo demais, ao, aparentemente, eximir a especulação imobiliária de responsabilidades próprias, concentrando no(s) governo(s) toda a culpa. Mas, mesmo para governos e sociedades que respeitem rigidamente o clima as leis, o volume d?água despencado sobre a região serrana carioca só não causaria vítimas humanas se toda área afetada fosse desabitada. Tudo indica que a análise mais consubstanciada deva levar em consideração a irresponsabilidade dos poderes públicos em primeiro lugar, seguida da denúncia da temerária ocupação do solo promovida pela iniciativa privada. Os poderes públicos falham ao não definirem e praticarem legislações mais rígidas e eficientes; assim como erram pelo não investimento em tecnologia e políticas preventivas, dentre outras fraquezas. Mas há de ser reconhecida a voracidade e amplitude das ocupações irregulares, praticadas em todas as faixas sociais, gerando desde favelas até condomínios de luxo, passando por imóveis típicos das camadas médias e até por lotes rurais. É necessária uma ampla mudança no entendimento do brasileiro. A condenável concepção do ?mais importante é levar vantagem? traduz-se também nesse tipo de ocupação so solo. E a Natureza reafirma que não há vantagem em desconhecer-lhe a soberania.