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Opinião

O craqueiro e o construtor

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O construtor proprietário de uma empresa de pequeno porte resolve instalar o seu escritório no centro histórico de Marechal Deodoro, onde as construções antigas não podem sofrer modernas intervenções que possam agredir o antigo conjunto arquitetônico. Dessa forma, grades de proteção não podem ser colocadas nas portas e janelas de madeira, muros altos não podem ser levantados ou qualquer outra solução de segurança que interfira na harmonia do conjunto, facilitando as ações de arrombadores e pequenos ladrões. As obras de reconstrução e manutenção do patrimônio histórico se multiplicam no município e muitos materiais e instrumentos estão ali dispostos. Naquele mesmo espaço perambulam jovens dependentes químicos de crack ? craqueiros, buscando qualquer fonte de recurso para a compra da droga e visualizando produtos de venda fácil. Para que o crime aconteça duas circunstâncias tornam-se fundamentais ? desejo e oportunidade, o desejo está com o criminoso, a oportunidade é ofertada pela vítima. Para o craqueiro o desejo vira compulsão, que o leva a enxergar oportunidade em tudo que seus olhos alcançam. Noite de um final de semana, pouca movimentação nas ruas, o escritório do construtor é arrombado, local onde são guardados alguns materiais usados nas obras; o arrombador removera poucas telhas e saíra de lá com algumas latas de tinta. O construtor vai à polícia e cobra providência, que mais das vezes não passa da confecção de um boletim de ocorrência. Três dias depois volta o construtor relatando que mais uma vez o arrombador visitara seu escritório e levara o restante das tintas. O arrombador fora identificado e detido, confessando que transformara as latas de tinta em 50 pedras de crack, fumadas em apenas 3 dias. O construtor esteve na polícia, conheceu o craqueiro e conversaram durante poucos minutos, tempo suficiente para oferecer-lhe oportunidade de tratamento para sua dependência química, custeado por ele. A família do craqueiro, residente a poucos metros da delegacia, logo tomou conhecimento da boa nova e providenciou o internamento. O construtor não tinha experiência nessa nova obra de reconstrução de vida e terceirizou com clínica de recuperação de dependentes químicos. Como na clínica só fica quem quer, o craqueiro voltou às ruas em poucas semanas para reiniciar o ciclo ? compulsão, oportunidade, crime, cadeia (quando possível), rua, compulsão... O empresário fechou o escritório e demitiu todos os seus colaboradores, o craqueiro amplia o número de vítimas e inimizades, abrindo caminho para a cadeia ou para o cemitério, o que tem acontecido com frequencia. (*) É delegado de Polícia Civil.

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