Opinião
�guas, casas e governos
Voltaram as águas de janeiro. Com sua fúria destruidora, elas espalharam mortes, destruições, e muito, muito sofrimento, na linda terra Serrana do Rio de Janeiro. Até o fim da semana passada, havia a triste contagem de mais de 785 mortos e cerca de 20.000 desabrigados. A maior tragédia nacional, de que se tem conhecimento nos últimos anos. No ano passado foram menos, 283 mortos e 11.000 desabrigados. Em 2008, em Santa Catarina foram menos ainda, em 1987, também no Rio, foram menos que esse ano. No próximo ano provavelmente, por desgraça, serão mais. É o homem que destrói o seu planeta. Esse lindo planeta azul, perdido como um ponto no espaço imenso e até agora o único lugar, que conhecemos habitado por seres inteligentes. Onde corria um rio, o homem fez uma rua asfaltada; onde passava um regato, o homem construiu um canal, que não suporta o crescimento das águas de verão, onde havia um belo morro coberto de vegetação virgem, o homem encarapitou algumas pobres casas de moradia, graças à incúria governamental.. E que fazem os governos? Muito simples. Sobrevoam de helicóptero as áreas atingidas e está resolvido o problema. Voltam para seus gabinetes climatizados em Brasília ou no centro do Rio, tomam da caneta e decretam uma verba extra para atender (só agora...) os pobres flagelados das enchentes nos morros de Teresópolis, Petrópolis e a região serrana fluminense. É claro que eles não vão sujar seus pés na lama descida da serra, ainda mais se usam sapatos de salto... A meteorologia previu a catástrofe. Uma corrente de ar úmido, vinda da Amazônia, provocara a formação de nuvens muito carregadas, até com 18 quilômetros de altura. Foram essas nuvens que despejaram toneladas de água no sudeste brasileiro em poucos dias. O fenômeno em si seria normal, não fosse a intensidade com que ocorreu. Os cientistas suspeitam que houve influência das mudanças climáticas do planeta, devido ao aquecimento global. O alarme dado pelos metereologistas não foi tomado a sério ou, pelo menos, não na urgência e amplitude que a situação exigia. Em toda essa tristeza, fica uma coisa bonita: a solidariedade, na qual, graças a Deus, o brasileiro é campeão. Quanto material de ajuda enviado de todos os pontos do país, quantos voluntários abnegados, vindos de toda parte, enfermeiros, médicos, militares. A Santa Sé, dando o exemplo, enviou substancial ajuda e os bispos do Brasil estão se movimentando para enviar ajuda financeira às dioceses atingidas. Cristo Redentor, do alto do Corcovado, abra seus braços de bênçãos sobre a sofrida terra fluminense. (*) É arcebispo emérito de Maceió.