Opinião
Imprevid�ncia social
Uma das graves distorções no sistema previdenciário brasileiro veio à tona com o escândalo das pensões dos ex-governadores. Mas, justiça seja feita, esta deformidade não é a única, e, muito menos é a mais dispendiosa para a Nação. Uma das distorções mais significativas é a que distingue dois tipos de aposentados, apartando o contribuinte do serviço público do contribuinte oriundo da iniciativa privada, cristalizando assim uma diferença gritante na origem, onde dois tipos de trabalhadores coexistem no Brasil: um vivente no setor público, outro no segmento privado. Vantagens que vigoram para um inexistem para outro, conformando assim duas classes trabalhadoras. Desunidas no labor e na aposentadoria. Depois dessa distinção básica, outros muros, aqui e ali, separam categorias e grupos como se castas fossem. Nesse universo contraditório, explodiu a questão dos ex-governadores. Em Alagoas, nos idos de 1987, por iniciativa do então governador Fernando Collor, foi eliminada a triste figura da pensão especial para ex-governadores. Mas, algum tempo depois tal privilégio foi revitalizado, ao que parece. E, para além dos limites alagoanos, a vantagem dos ex marca presença com força, alcançando até personagens que gostavam de posar como exemplos de pureza ética universal. Como dito, apesar dessa distorção chamar a atenção da cidadania, o problema é maior e mais profundo. Tal privilégio merece a devida revisão. Mas tal correção não deveria ficar restrita a um segmento. Faz-se necessária uma reformulação do sistema previdenciário brasileiro. Mesmo que não seja possível uma uniformidade absoluta em termos das próprias disparidades nacionais, não se pode mais conviver com tantas distorções, tantos nichos. Não se trata de igualitarismo, o que é pura utopia, mas de unidade de conceitos, de paridade de direitos, de justiça social. O caso das pensões especiais para ex-governantes deveria, além de indignar a opinião pública, provocar uma mudança real em nossa confusa realidade previdenciária.