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Fatalidades?

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Há quase seis meses Pernambuco e Alagoas sofreram as agruras de uma violenta cheia, que só não ceifou muitas vidas porque as águas chegaram durante o dia em muitas das cidades atingidas. Os prejuízos materiais foram muitos. Há quase um ano, cheias em Niterói; tempos atrás, em Blumenau, e em São Paulo , todo janeiro há mais de dez anos. Chuvas esperadas, previstas e conhecidas são tratadas como uma fatalidade em razão dos escorregamentos de terra, dos desmoronamentos decorrentes, dos alagamentos e inundações. Muitas explicações técnicas existem para tudo que se repete nas grandes cidades e capitais mais importantes do Brasil há quase dez anos, desde a própria avaliação do tempo geológico que provoca alterações físicas naturais em paisagens mundo afora, até a conhecida falta de planejamento urbano com todas as suas mazelas. Os desmoronamentos ocorridos nos morros do Rio de Janeiro agora poderiam até acontecer naturalmente, o problema é que sobre, abaixo, ao lado e acima das encostas, existem ou existiam milhares de casas e até prédios de mais de uma andar. As imagens terríveis mostradas na TV atestam a construção de casas praticamente dentro do leito de rios urbanos. Tudo isso existe há anos e, o que é pior, só aumentou, graças ao descontrole na gestão do espaço urbano pelas prefeituras. Assim, é facílimo detectar as causas das graves cheias urbanas e dos desmoronamentos de encostas vistos hoje em quase todas as capitais brasileiras. A favelização vista romanticamente nos morros cariocas na década de cinquenta hoje cobra o seu preço depois de se espalhar pelo país. A falta de políticas públicas, de profissionalismo na gestão técnica das prefeituras, a necessidade crescente e urgente de solucionar os problemas de moradia dos mais pobres, prefeitos que doam terrenos em áreas sem nenhuma estrutura, gestores públicos que não priorizam a elaboração de estudos e projetos, além da ingerência negativa dos políticos locais na administração das prefeituras, também complementam a fácil identificação de causas. Apontar todas estas falhas e indicar os culpados, principalmente depois dos desastres, é uma tarefa simples para jornalistas, técnicos, políticos oportunistas, líderes comunitários e promotores públicos, afinal as causas são absurdamente conhecidas há algum tempo. Tudo hoje se resume a uma expressão que mais parece um clichê de propaganda: falta de planejamento urbano. Ora, como falar em planejamento se não há gestão? Apontar os culpados vai resolver os problemas? Identificar as causas e mensurá-las, apontando as ações corretivas também será a solução? Objetivamente pode se dizer que não, é a resposta para as duas perguntas, porque tudo será sempre precedido por profundas e radicais mudanças na forma como os serviços públicos são gerenciados e, principalmente, como os políticos do Legislativo e do Executivo se entendem para o preenchimento de cargos que exigem pré-requisitos que estão bem distantes da militância partidária ou, quando é pior, da fidelidade canina a candidatos que às vezes nem se elegem. (*) É engenheiro civil.

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