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Opinião

O homem-burro

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Paradoxalmente, a fragilidade de um homem sem vigor puxa uma carroça de entulhos. Há uma representação humana, animalizada à frente dela. Ele carrega nas costas as distorções da urbanidade contemporânea. O tal homem tem uma rotina domesticada. Acorda quando a cidade ainda dorme. O desjejum é feito por água e frutas imprestáveis aos que levam uma vida verdadeiramente humana. Veste-se com andrajos e percorre as ruas, claramente invisível. O homem-equino corta as ruas e avenidas, sem um roteiro prévio. Parece caminhar em espasmos involuntários. Fareja e intui o que lhe serve. É uma legítima manifestação do instinto de autopreservação, é como se sua fisiologia se desobrigasse da razão. Seu cotidiano se constitui em revirar, revolver e catar lixo, além de substituir um cavalo, não um puro sangue, de linhagem, mas um acostumado aos maus-tratos, a pouca ração, diversas verminoses, nenhum afeto e muito peso. Raras vezes sai só, sempre se faz acompanhar pela mulher ou com, pelo menos, um, dos quatro filhos, e frequentemente, com o cachorro Pipo, que, de tão magro e maltratado, assemelha-se à cadela Baleia, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, o que o torna, de certa forma, um retirante, um excluído das possibilidades. Condiciona sua categoria bípede em função de sua vida animal. Seu trabalho é uma obrigação servil, carregado de sentimento de orfandade. Apesar de sua humanidade reduzida, ainda resta um elo na cadeia da vida, não se furta a um juízo estético. Adorna sua carroça com toda a sorte de objetos coloridos. Cacos de espelho, cd, flores de plástico, um celular com avaria, um rádio quebrado e um calendário, de um ano qualquer que passou, estampando uma moça bonita. Naquele ?trabalho?, coloca todas as suas esperanças: nutrição, vestuário e alguma forma de lazer para os filhos em um brinquedo quebrado. Sua busca pela vida o credencia a conhecer os hábitos da sociedade que ele avalia pelos resíduos gerados em função de consumo. Quando se dispôs a falar, fez como ninguém, a colocação de todos, nos índices sociais, bem como, seus costumes, e, em especial, os característicos de final de semana, quando mais se consomem bebidas e comidas prontas, pois são, nas segundas-feiras, que mais latas, vidros e caixas recolhe para vender às recicladoras. A vida, para ele, afinal, passa por isso por uma concepção mais orgânica, essa é sua primeira luta: derrotar, inicialmente, esse tipo de entrave, para, só então, vencer as demais guerras humanas que tanto apetite trazem aos homens. Devemos ampliar o foco do que vemos subverter as concepções acomodadas e sair das vias comuns para alcançar o dualismo das coisas, apurar o olhar para as resignificações sociais, bem como o compromisso com o homem e a melhoria de sua comunidade. A respeito da melhoria da coletividade, foi muito pertinaz a colocação feita pelo teatrólogo Augusto Boal quando assentou que: ?A pirâmide da desigualdade é antropofágica. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que o outro mundo é possível. Mas, cabe a nós construí-lo com nossa mão, entrando em cena no palco da vida?. (*) É estudante de Jornalismo.

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