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Os “memes” de vov�

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Duas coisas podemos deixar, depois que morremos, de acordo com o cientista Richard Dawkins (1941): genes e ?memes?. Diz sua teoria que o ?meme? está para a memória assim como o gene está para a genética. Que fomos construídos como máquinas de genes, criados para passá-los adiante. Todavia, em três gerações estarão esquecidos. Nosso filho ou neto terá alguma semelhança conosco, na aparência ou no talento para alguma arte. Porém, a cada geração que passa a contribuição de nossos genes é diminuída pela metade até tornar-se quase sem expressão. Mas, se nós deixarmos uma boa ideia, inventarmos alguma coisa, compusermos música, escrevermos poema, legarmos pintura, tudo isso poderá seguir vivendo por muito tempo, incólume, mesmo depois que nossos genes forem dissolvidos. ?Sócrates pode ou não ter um ou dois genes hoje vivos no mundo, mas quem se importa? Os feixes de ?memes? de Sócrates, Leonardo, Copérnico e Marconi continuam vigorosamente ativos?. Posso eu, ainda, ter de meus avós aqueles traços característicos, mas, já pouquíssimos, meus netos terão. Ficam fotos como lembrança. Ainda mais quando, no meu caso e de muitos da minha geração, não conheceram os dois avôs. Do paterno, sempre ouvi falar que era artista de ofício, pintor português, aqui chegado no início do século passado, mas nunca tive a felicidade de ver uma pintura sua sequer. Em 2006, a coluna ?Diário de Pernambuco há cem anos? lembra a visita do artista português Carlos Brêda àquela redação, no dia 15/09/1906, mostrando um seu trabalho a ?souce?: o retrato do dr. Martins Junior. Até então, o único ?meme? avocável ? sem trocadilho ? do vovô lusitano. Entretanto, para surpresa minha, quando da entrega oficial do busto de dr. Ib ao Instituto Histórico, pelo presidente da Fundação Casa do Penedo, dr. Francisco Salles, este inquiriu-me sobre um pintor Brêda dos idos de 1920. A emoção daquela noite, por si só, bastava. Mas, dr. Salles, sem querer, abalou meus alicerces. Seu relato de que existiam pinturas daquele artista, em casas antigas de Penedo, fez-me ir à sua terra. Sabia que era esse tipo de trabalho que o fizera percorrer todo o Nordeste: a pintura de afrescos em paredes de residências de pessoas abastadas. Infelizmente, no Solar dos Loureiros, o trabalho de restauração, empreendido pela Casa do Penedo, ainda não tinha sido concluído. São mãos e mãos de tinta em cima dos desenhos, dando ao restaurador enorme trabalho para conseguir recuperar o que está recôndito. Em outra casa, lá estão. Paredes e mais paredes, ornadas com afrescos do piso ao teto, coroando com a pintura de um santo, com a assinatura: C. Brêda ? 1924. Um verdadeiro feixe de ?memes?, veementemente vivos, de meu avô. (*) É bacharel em Economia.

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