Opinião
Bento XVI e os anglo-cat�licos
Enfim, o Ordinariato Pessoal de Nossa Senhora de Walsingham, destinado aos ex-anglicanos convertidos ao catolicismo, foi instalado. Um ordinariato é uma espécie de diocese, com clero e ordinário (bispo ou um equivalente perante o Direito) próprios. A criação de um ordinariato voltado para ex-anglicanos desejosos de retornar à plena comunhão com a fé católica é um marco na história ocidental, infelizmente tratado com pouca atenção pela imprensa e pelos próprios cristãos católicos. Os anglo-católicos conservarão suas tradições milenares, tão ricas e marcantes na história cristã no Ocidente. No entanto, mesmo na esteira de uma tradição diversa, seguirão sendo, a partir de então, legitimamente católicos. Nada mais alvissareiro, revelador de uma Igreja que convive com as diferenças e com a diversidade, mas na fidelidade àquilo que crê. Estamos vivendo aqueles tempos já previstos pelo grande visionário João XXIII, quando pensou, articulou e consolidou o Concílio Vaticano 2: uma Igreja que sabe ler os sinais dos tempos, renovando-se segundo as inspirações do Espírito Santo na fidelidade à Tradição. O grande artífice desse reingresso dos irmãos de tradição anglicana no seio da Igreja é Bento XVI. Que grande homem! Podemos dizer, com toda certeza: este será um dos grandes feitos do seu pontificado. O papa Bento XVI é um homem de visão, que apresenta ao mundo um Cristianismo aberto ao diálogo, mas cônscio de sua identidade. O Santo Padre bem o sabe: a vitalidade da Igreja está na fidelidade a Cristo, e não nos ?achismos? malucos de certos teólogos, nas ideologias imanentistas que a todo instante tentam infeccionar a sã doutrina e a moral, no secularismo que tenta a todo custo arrancar Cristo de sua própria Igreja. Os anglo-católicos, ex-bispos e padres anglicanos, já convertidos, demonstram-se gratos à Igreja, na pessoa de seu pastor Bento XVI, sinal vivo da solidez da fé, tão abalada nos meios anglicanos abertos ao ?modismos? que só fizeram muitos fracassarem na fé. Como todos os papas da Igreja, o pontificado de Bento XVI (e esperamos que esse dia ainda esteja longe) chegará ao fim. Mas ele estará na galeria dos grandes papas, não porque cantou a música desejada ser ouvida pelo mundo, por certos teólogos e até setores da Igreja. O nome de Bento XVI será lembrado porque, assim como seus predecessores do século 20 e início do século 21, soube guiar a Igreja em meio aos desafios próprios de cada período histórico, buscando, na retidão, apresentar a fé ao homem de seu tempo, oferecendo-lhe aquilo que a Igreja tem de mais precioso: a vida em Cristo. (*) É psicólogo ([email protected]).