Opinião
Renunciar
É difícil abrir mão do que temos. É complicado renunciar uma postura, uma posição, um hábito. O presidente da Tunísia (Ben Ali) e o presidente do Egito (Hosni Mubarack) foram convidados a ?renunciar? ao cargo. Milhares de pessoas gritaram, se organizaram, clamaram pela renúncia. Desafiando todos dogmas de uma opressão religiosa e política, o povo reivindicou seus direitos de cidadãos. No entanto, o orgulho também tem um grito potente. É histórica a dificuldade humana de abrir mão do poder. Todos nós: reis ou súditos, patrões ou empregados, pais ou filhos temos dificuldade de renunciar, de admitir erros. Arrependimento é assunto central na Palavra de Deus. Arrependimento é admitir o erro, renunciar o pecado. Jesus nos diz assim: ?Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me?. (Marcos 8.34). Esse texto é desafiador! Ele nos convida a renunciar aos nossos próprios interesses. Na maior parte de nossas leituras o ato de render-se é interpretado como fraqueza, pois nos rendemos diante de algo mais forte. Porém, na bíblia, a verdadeira força está no ato de render-se diante de Deus. Isso acontece quando nos esvaziamos de nós mesmos e nos enchemos com a graça, nos enchemos com o Espírito de Deus. Somente então somos capazes de perdoar, de renunciar mágoas, de recomeçar. Ao apóstolo Paulo, que clamou por livramento de sua enfermidade, Deus diz: ?A minha graça é tudo o que você precisa, pois o meu poder é mais forte quando estás fraco? (2 Coríntios 12.9). A renúncia em muitos casos, é benéfica, aceitar, mais ainda. No poder de Deus encontramos a sabedoria para saber quando renunciar e quando não renunciar. Pois, nesse mundo cheio de alegrias passageiras, onde tudo envelhece, enferruja, apodrece, há também valores eternos dos quais não podemos abrir mão ? entre eles está a nossa fé em Jesus. Ele nos elegeu ao cargo da vida eterna e nos diz: ?Se fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida? (Apocalipse 2.10). Parece que o bom senso e a sabedoria estão entre os milhares que pedem e pediram (no Egito já conseguiram) o afastamento dos líderes autoritários. Mas o mesmo bom senso se une a voz sábia dos apóstolos e profetas solicitando que renunciemos nossos pecados, sem jamais renunciar ao Senhor Jesus e a sua obra; afinal, mesmo sendo difícil, ele renunciou a sua vida, mas não renunciou o caminho da cruz. (*) É teólogo e pastor da Igreja Luterana.