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Opinião

Revolta premiada

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Os grandes centros urbanos vivem os temas que compõem a realidade nacional. A cidade do Rio de Janeiro, pródiga em acontecimentos,há algum tempo passado, em uma agência bancaria situada numa avenida de Copacabana, testemunhou uma cena de manifesto conteúdo humano. Em uma manhã, naquele ambiente, um veemente protesto de um aposentado, traduziu as agruras de sua abandonada classe. De estatura mediana, alvo, a sua palidez transformava-se em rubra, face a agitação de seu espírito de revolta. Ele verberava contra o tratamento dado aos aposentados pelo governo, que articula um quadro deficitário para negar direitos. Arguia as razões de quem trabalhou a vida toda, recolhendo para os cofres da Previdência Social, e colaborou para o crescimento do País. Recorria aos firmes argumentos do Senador Paulo Paim, na causa dos aposentados. Narrava as dificuldades das filas e a angustiados cálculos dos benefícios. As normas que desrespeitam o nível das contribuições recolhidas e as atualizações imprecisas. Os pedidos de revisões diante uma burocracia adversa e complexa. Seu drama pessoal comovia a todos os presentes. No auge do clima de tensões, ingressa na agência uma turista argentina. Escultural, exuberante e com um ar colorido de liberdade. Usava um short que acentuava as curvas de seu corpo. Reservadamente, se postou ao lado da porta de entrada, observando àquele tumulto. As atenções das pessoas ficaram divididas ? entre o drama do aposentado, e a presença inebriante da turista, que parecia superar todos os outros temas e pecados da manhã. O aposentado inflamado, de costas para a entrada da agência, não percebeu a chegada da sedutora argentina. Continuava em voz alta ditando os entraves do seu problema e as desilusões com a Previdência Social. Quando resolve ir embora, vira-se bruscamente e se surpreende com a visão alucinante da turista. Olha atônito, àquela figura de mulher que o transporta à outra realidade. Num gesto rápido, em comovida atitude, beija-lhe o rosto. As pessoas dominadas por expectativas, observam a reação da jovem. Ela, com um sorriso de grandeza nos lábios, simplesmente diz: ?muchas gracias, señor?. A Agência delira silenciosamente. O aposentado, com olhar redimido, deixa nervosamente o local e segue o ritmo de seu destino pela calçada da Avenida. Todos que testemunharam os momentos do episódio, pareciam lembrar-se da velha sentença de Machado de Assis: ?alguma coisa sempre escapa ao naufrágio das ilusões?. (*) É advogado.

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