Opinião
Amor e incerteza
Outro dia li um texto que merece reflexão e que tento reproduzir de memória: são tantos os problemas e envolvimentos do dia a dia, que, por vezes, a pessoa esquece que a vida não é o tempo que se passa nela, mas o que se faz enquanto o tempo vai passando. Como a vida é feita de instantes, não deve e não pode ser medida em dias ou meses, mas em minutos e segundos. O instante que está sendo vivido deve ser aproveitado sempre, isolando, quando possível, os momentos de tristeza e amargura, valorizando os momentos alegres e felizes. Quem assim o faz, aproveita bem a viagem terrena que está em curso. Apesar de tantos avanços no campo da medicina, mais informações à disposição, uma considerável diminuição das distâncias pelas tecnologias de comunicação, estamos muitas vezes diante de doenças, moléstias ou enfermidades para as quais não são encontradas soluções. Ver definhar um ente querido à nossa frente, sem terapêutica ou cirurgia que o cure, é desafio à sensibilidade, dor que dói e maltrata. Uma carta recebida de uma amiga médica descreve bem essas angústias. Creio que o leitor concordará. Diz: ?Pior, ainda, quando o prognóstico da doença é desfavorável. Olhares recaem sobre nós, como se detivéssemos a chave da salvação. As cobranças são inevitáveis, mas ninguém pode avaliar quão triste é a sensação de impotência... Minha mãe faleceu, aos 70 anos de idade, no leito de um hospital.? Continua a carta dessa colega: ?Passados tantos anos, esse mês de fevereiro me convida a refletir sobre minha condição de médica. E lembro, com carinho, de minha mãe. E a vejo sorrindo e em paz por ter cumprido sua etapa evolutiva, embora abreviada por uma doença neurológica. Através dela eu descobri o gosto pela escrita. Ela me fez humanizar ainda mais meus atendimentos clínicos. Com a experiência, descobri que um antibiótico pode curar o físico, mas não é capaz de sanear a alma. Que um carinho pode ser tão potente quanto um analgésico e seu efeito, creiam, bem mais duradouro. Quando só resta aguardar a natureza seguir seu rumo inexorável, nossa simples presença pode amenizar a angústia que o futuro incerto traz. E por fim aprendi, que confiando na energia cósmica que rege o universo, é possível, sim, ser forte suficientemente quando a tempestade emocional chegar. Ah! Uma força estranha me induziu à aproximação com o divino.? (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Sáude.