Opinião
O Pinto e as Alagoas
Repetirei amanhã, 26 de fevereiro, um tradicional ritual que completa 11 anos. Após uma ansiosa e cheia de expectativas noite de sono, em um hotel não muito luxuoso à beira-mar de Pajuçara, levantarei às 5 da matina e vestirei o manto sagrado do carnaval alagoano. Acompanhado do meu ídolo Braga Lyra e de alguns bons amigos, iniciaremos os últimos ajustes para a passagem do Pinto da Madrugada. O ritual já tem seu cenário desenhado: fechamento das ruas pelo batalhão de trânsito; chegada paulatina dos quase 700 músicos vindos de várias cidades alagoanas, munidos de trompetes, trombones, tambores que juntos formarão o exército da paz e da alegria. Com o tempo, chega a famosa Pintoca com seu coral e músicos magistrais, portadores de um repertório recheado de nostalgia e puxada por Eduardo Lyra. Com alguns minutos, chegará Marcial de Lima e Marcos Davi para perfilarem as orquestras, completando o quarteto revolucionário da cultura alagoana. Estandartes, seguranças, bonecos, fogos de artifício, Afonso Lyra a gritar: ?Meu fiiiilhoooo!!! (...)?, carro alegórico e os mais de cem mil foliões fantasiados completam o cenário do dia mais feliz das Alagoas. Mas, intitulei este singelo artigo de O Pinto e as Alagoas. E que relação poder-se-ia travar entre a Estrela Radiosa e a Revolução da Cultura Alagoana? E vou mais fundo: qual a relação direta entre o carnaval e a transformação social? Respondo-lhes. Este ano, o cenário acima narrado ganha um componente diferente. A tradicional camisa do Bloco Pinto da Madrugada, sempre marcada por seu pinto mascote carregando a conhecida sombrinha de frevo, trará o gracioso personagem a segurar a bandeira de Alagoas. Não sem razão. O carnaval, mais do que a festa da carne, do prazer e da liberação dos instintos e complexos morais é um sério ritual possuidor do código genético da alma de um povo. E essa é a mensagem do próximo desfile do Pinto: somos, sim, um povo com identidade. O Pinto nos conclama que é chegada a hora do renascimento de Alagoas. É tempo, não de um novo pacto social, mas sim de se gestar um novo ?parto social?. Um parto que seja fruto de uma união emocionada, gestado na alma de todos alagoanos, sem distinção. Um parto que sintetize a nossa história com seus acertos e percalços e que desenhe um futuro de progresso e de felicidade plena a ser buscado por um povo sedento por mostrar seu sentimento de pertença. Um parto que nos leve a aumentar não nosso produto interno bruto (PIB), mas nossa felicidade interna bruta (FIB), nos tornando locais e globais a um só tempo. Um parto que encontre o verdadeiro propósito e o verdadeiro código genético de ser alagoano. O Pinto é a prova viva de que existem, como dizia Jorge de Lima, várias Alagoas em uma só, quando proclamava ?Minhas Alagoas são outras?, ao se contrapor aos que insistiam em associar Alagoas à violência, à corrupção e ao provincianismo. O Pinto é a prova viva de que é possível fazer, muito mais do que desenvolvimento cultural, dando a largada para um salto quântico mensageiro de uma profunda transformação social nas Alagoas em todas as áreas. (*) É advogado e folião.