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Opinião

Para cada dia, bastam as preocupa��es

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O livro do Eclesiastes nos diz que a infelicidade do homem consiste em não saber o que lhe vai acontecer; e que ninguém pode lhe anunciar o que há de ser (cf. Ecl 8,6b-7). Estas palavras do autor sagrado trazem à luz uma realidade tão humana: o nosso instinto de sobrevivência. E quando falamos deste instinto não nos referimos somente à busca de preservar a vida biológica. Em um sentido mais amplo, sobrevivência é a busca de, a todo custo, preservar a nossa vida, procurando tenazmente antecipar aquilo que nos virá; pois isto nos dá a falsa garantia de que podemos ter o controle acerca daquilo que o futuro nos reserva. Ora, se observamos com atenção, quanto mais avançamos tecnologicamente, cientificamente, maior é o número de pessoas ansiosas, depressivas. A ansiedade nada mais é que o medo da perda, o medo de não estar no controle. O progresso nos deu a falsa sensação de que tudo está em nossas mãos... mas a realidade nos coloca diante de uma outra verdade: nada sabemos, além do dia de hoje. Diante dessa constatação, só nos resta adoecer. Nesse contexto de ansiedade é tão fácil ocorrer a busca pelas falsas seguranças. Tudo se torna um porto seguro: os amores, o emprego, o dinheiro... Realidades tão efêmeras, a qualquer momento nos são roubadas. E, de repente, quando se vão, volta a sensação de que estamos à deriva no mar da vida. A orientação de Jesus apresenta-nos um outro modo de viver, um jeito de caminhar que implica, principalmente, em abandonar a infelicidade de tentar antecipar as coisas que nos acontecerão. Para isso, Ele deixa claro que não podemos ter dois senhores nesse mundo (cf. Mt 6,24), tudo deve estar sobre o seu senhorio. Em outras palavras: Jesus nos convida a não colocarmos a nossa esperança nas realidades passageiras, pois elas não são deus. Por mais que amemos, por mais que conquistemos os nossos objetivos, eles não garantem o sentido da nossa existência. Por isso Jesus nos exorta a não nos preocuparmos excessivamente com o amanhã, mas devemos viver o hoje, pois para cada dia bastam as suas preocupações (cf. Mt 6,34). Poderíamos aqui pensar: ora, Ele está nos convidando a uma vida ociosa, irresponsável. Nada disso. Devemos lutar, construir a vida. Mas na certeza de que não estamos sozinhos nesse caminho. E por não estarmos sós, não nos compete saber o que será do amanhã. Afinal, o futuro nada mais é do que o resultado do hoje tecido na fidelidade diária a Deus e as causas abraçadas nessa vida. A cura da ansiedade reside justamente em abandonarmos o papel de deuses ? tentação tão antiga ? onos e controladores do futuro. Vivamos, dia após dia, enquanto se disser hoje. E isto nos basta. (*) É diácono ([email protected]).

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