Opinião
Sobre sussurros e vozes
No livro O carteiro e o poeta ocorre um diálogo entre as personagens. O poeta, diz ao carteiro que o poema que ele dera a sua namorada era seu (poeta) O carteiro responde que ?a poesia não é de quem faz, é de quem dela precisa?. Preciso, pensei! Uma vez publicado, o poema pertence ao leitor. Resolvi saudar as mulheres me apropriando de um poema, sem título (mas, quantos sentidos...) de Ana Cecília Lima ? que diz da ruptura e da superação do feminino no desejo de ?se fazer mulher? e não do ?nascer mulher?, como fala Simone de Beauvoir. ?Escrevi histórias nunca ouvidas...,/E com minhas mãos afiadas,/ Rasguei a linha do teu discurso/ E falei o que a muitos causou sustos.../ Revirei pelo avesso a tua lógica,/E pisei com minhas pesadas botas/No centro do teu conhecimento.../Desviei tua rota,/E fiz de tua linha retilínea,/As curvas de meus delírios./Não diga que me cale ?/O buraco já foi revirado,/Tuas fraturas já foram expostas,/E os sussurros já viraram VOZES?. Percebemos que ser mulher é conviver com a polaridade feminino x masculino, criando e recriando, como em um caleidoscópio,outras imagens e formas de ser. Viver sendo, fazendo, conhecendo e (re)conhecendo a criação do ser feminino a cada novo sussurro que se faz VOZ. É, ainda, afiando garras, rasgando discursos canonizados, expondo fraturas. Essa postura feminina se deu em saltos milenares, de gerações e gerações, quando, rompendo barreiras, cavando espaços, surgiu a participação da mulher no âmbito público através do trabalho fora do lar e, mais ainda, como diz o poema ?falando o que a muitos causou sustos?. Instaura-se, então, uma necessidade de eliminar fronteiras, rompendo regras ?revir(ando) pelo avesso a tua lógica?, como diz o discurso lírico. E agora, homens e mulheres se fazem gênero na relação escolhida, ambos trocando de papéis quando necessário. Por isso o texto de Ana é enfático quando diz: ?Desviei a tua rota,/ e fiz de tua linha retilínea/ as curvas de meus delírios? ratificação do novo paradigma construído anos após anos pela tentativa de ?se fazer mulher?. A atual postura feminina não é de incapacidade de gerar e gerir seu destino, visto que ?tuas fratura já foram expostas? comprovado a capacidade feminina de ?revirar buracos?, subterrâneos onde sentimentos e desejos foram calados pela força do patriarcado. Após desenterrar essa voz inaudível, o eu-poético exige que ?não diga que me cale?. (*) É professora de Literatura.