Opinião
Uma realidade brutal
Atendendo a pedidos, reproduzo um artigo publicado há alguns anos. Há profissões estressantes no desempenho; as que pertencem à área de saúde não fogem a essa regra. As pessoas que nela trabalham convivem com a doença, doentes, mistérios da vida e da morte. Quase sempre, são atingidas por sobrecargas emocionais. Há profissionais que criam uma ?couraça? defensiva, como forma de proteção das ansiedades do dia a dia. Especialistas falam de ?síndrome do estresse profissional? que, para alguns, significa excesso de trabalho; para outros, exposição à situações dramáticas com as quais convivem, no contato íntimo com a dor e o sofrimento. Contei, no parágrafo anterior, o teor de uma conversação que mantive com um doutorando de medicina. No fim da conversa, passamos do sério para o divertido, e ele me contou a curiosa história de um cirurgião que operou um ?pistoleiro de aluguel?, desses que matam para receber míseros tostões. Na hora da cirurgia, dúvidas assaltaram o profissional. Tinha consciência de que iria recuperar uma ?fera?, capaz de provocar danos a outras pessoas. Por outro lado, seu dever profissional e o juramento de Hipócrates proferido no momento da formatura, indicavam claramente seus deveres. Apesar da extrema gravidade do ferimento, o malfeitor recuperou-se rapidamente. O médico aconselhou-o a mudar de vida. Um ano depois, numa sexta-feira, após o encerramento de uma semana de muitas atividades, o médico resolveu viajar para sua fazenda. Estava exausto, estressado. Repentinamente, numa curva da estrada, seu carro foi interceptado por três marginais, fortemente armados. Um dos assaltantes ordenou: ?Saia do carro! Quero seu automóvel! E vou matá-lo, para não deixar testemunhas!...?. De repente, ouviu-se um grito: ?Chefe, não deixe fazer isso, esse é o doutor que salvou sua vida. Olhe bem para ele!? ? É o doutor, sim, reconheceu o chefe do grupo. E com voz autoritária: soltem ele! Doutor, eu lhe devo muitas desculpas; siga sua viagem em paz. O médico respirou aliviado! Levantou-se, encheu-se de coragem e disse ao homem que ele operara: mude, homem, não faça mais isso, você tem família, tem filhos! Deus acaba de salvar a minha vida por seu intermédio. Talvez isso seja um aviso para você. Passados alguns anos, o cirurgião recebeu uma carta que dizia: ?Doutor, saí da prisão, estou em São Paulo, trabalhando, minha família está inteiramente feliz! Sempre há tempo para mudar. Mudei!?. (*) É médico e ex-secretário de Saúde e de Educação.