Opinião
E a vida continua
E o mundo não acabou. Apesar dos esforços humanos para o desequilíbrio do planeta, a Terra continua a girar sobre seu eixo e em torno do sol, como muito antes da humanidade povoar esse grão no universo. É incrível a capacidade de proliferação de versões apocalípticas sobre o fim do mundo. Essas ondas antecipam, em muito, a própria definição bíblica do Apocalipse, sendo encontrados mitos semelhantes em muitas culturas nos séculos anteriores aos escritos sagrados hebreus. Verdade é que, sob o cristianismo, a concepção do Juízo Final realçou e, ao mesmo tempo, amenizou a concepção de fim dos tempos explicitada pelo judaísmo. Apocalipse é um vocábulo grego que significa ?revelação?, valoriza a continuidade da vida (espiritual) após a morte (física). O mito do fim do mundo não só antecede à badalada invencionice sobre um suposto anúncio do ?calendário maia?, mas é mais velho e mais vivo que a ancestral Bíblia. E continua inspirando idiotices coletivas de largo espectro, alcançando milhões, como pode ser verificado pelo frisson dos dias em torno do 21 de dezembro de 2012. Só para citar dois registros do fim do mundo pré-Bíblia (e pré-Maia), o relato do dilúvio universal tem registros muito anteriores ao escrito sobre a Arca de Noé, constando do que é considerada a narrativa escrita mais antiga da Terra, a epopeia Gilgamesh (1.300 a.C.). Por sua vez, um dos mitos africanos fala de uma abóbora gigante que devorará a humanidade inteira; na Grécia e na Escandinávia ancestrais era o ?Fogo Universal? que acabava com tudo. Não adianta, portanto, atribuir às redes sociais contemporâneas o espalhamento da miragem bombástica sobre o chamado Calendário Maia. Imaginar-se vendo o mundo se acabar é um vício humano atávico contra o qual poucos remédios causam efeitos. Contra esses tipos de crendices nefastas apenas a cultura, a educação e o debate aberto produzem resultados, amenizam temores e tremores ? mas não curam em definitivo, pois a maioria dos mitos é imortal. Pelo menos enquanto o mundo existir, e/ou a humanidade nele sobreviver.