Opinião
Como uma torrente que passa, furiosa e veloz
Quem não se entristeceu, quem não ficou pasmo ante as imagens tremendas chegadas do Japão? Casas, carros, barcos, tantos objetos, tantos frutos de anos de esforço e trabalho, tantos sonhos e histórias de pessoas e famílias, tudo passando, tudo sendo levado, destruído... E, pior ainda, quantas e quantas vidas humanas, ceifadas de modo tão abrupto, tão tremendo! Tragédias assim, tantas vezes ocorridas na história humana, desde que o mundo é mundo, nos fazem perguntar por Deus: onde está ele, onde, sua providência? Por que permite? Por que as forças da natureza são tão tremendas e tão ameaçadoras? Muitas perguntas, que requerem, sem dúvida, tantas reflexões... Muitas coisas poderiam ser ditas a respeito, muitos fios de pensamento, de reflexão... Por agora, o que me vem muito forte é o quanto a Escritura nos repete o tempo todo: a vida é fugaz, o homem é pó que o vento leva, o destino humano é tão incerto, a ponto de Jeremias Profeta afirmar, quase num gemido, cerca de 600 anos antes de Cristo: ?Eu sei, Senhor, que não pertence ao homem o seu caminho, que não é dado ao homem que caminha dirigir os seus passos!? (Jr 10,23). Ontem como hoje, mesmo com todas sãs seguranças e tecnologias; também no futuro, ainda que o homem invente de tudo, estas palavras serão dramaticamente verdadeiras... Passamos, todos nós, como a erva que murcha. Quase nunca nos damos conta dessa realidade; quase sempre vivemos como se fôssemos estar aqui eternamente; quase sempre esquecemos que aqui estamos de passagem e que nossa vida é como um dia que passou... Diante da dor dos japoneses ? dor vivida com exemplar dignidade e senso de disciplina ? só nos restam o silêncio respeitoso, a solidariedade e a oração. Mas, numa ocasião como esta, também é preciso recordar o quanto somos pequenos, frágeis, passageiros, o quanto é necessário ancorar nossa vida não em projetos nascidos de nós próprios ou em ilusões que nosso coração cria, mas em Deus, misteriosa, indomável e amorosa Rocha da nossa existência... Senhor, tem piedade de nós! Ampara-nos no teu amor; consola-nos no meio da dor, do desalento, da perplexidade! Ajuda-nos a olhar para ti, a nunca esquecer que és amor e misericórdia. Aos mortos, acolhe no teu regaço; aos vivos, renova a esperança; em todos nós fortalece a confiança de que és amor e providência, mesmo entre as espessas nuvens que cercam muitas vezes a nossa existência. (*) É bispo auxiliar de Aracaju-SE.