Opinião
� preciso ser como crian�as
É notória no evangelho a predileção de Jesus pelas crianças (cf. Mc 10,13-16; Mt 19,13-15; Lc 18, 15-17). Ele as recebe, as abençoa e manda seus discípulos serem semelhantes a elas. No entanto, essa preferência de Jesus não se trata de uma atitude de bom moço, nem de alguém politicamente correto. Sim, porque é politicamente correto gostar de crianças. Só alguém de coração muito duro não se comove diante delas. Mas, assim como outra categoria bíblica, o pobre, criança no evangelho não aponta para o ser criança, mas orienta para a situação do ser criança. No salmo 130, 2 o salmista diz que fez a sua alma sossegar e calar como uma criança bem tranquila e amamentada no regaço acolhedor de sua mãe. E, nesse contexto, o salmista convida Israel a confiar no Senhor. Não se trata de um comportamento regressivo, infantil; isto seria imbecilidade. Trata-se de confiar. Assim como a situação da criança, cuja fragilidade e dependência, levam a confiar e encontrar paz no colo de sua mãe, assim deve ser a atitude de Israel: encontra em Deus o seu repouso, entregando-se confiantemente Nele. É nesse contexto bíblico que Cristo fala a respeito das crianças. Somente entende a radicalidade de sua mensagem quem se fizer como elas, na sua situação concreta; quem recebê-lo na atitude da criança no regaço acolhedor de sua mãe. Observe-se ainda que não se trata de se fazer como crianças porque as crianças são boazinhas. As crianças não são imaculadas. Basta olhar para o desenvolvimento delas, e já se vê a presença da inveja, do ciúme, da mentira. Trata-se de fazer a experiência da confiança filial das crianças na vida espiritual. As categorias bíblicas são sempre concretas. A Escritura desconhece o viés abstrato da filosofia, assim como desconhece qualquer viés ideológico nas suas categorias. Quando fala do pobre e da criança, por exemplo, não quer dizer que serão melhores no acolhimento e na vivência de sua Palavra quem for miserável economicamente e quem regredir para ser como criança. Pobre e criança são pessoas que colocam o homem numa situação mais dócil e de dependência em relação aos outros. É assim que o Pai espera que seus filhos recebam e acolham o reino que se manifesta no seu Filho Jesus: com docilidade e em atitude de humilde confiança e dependência. E ninguém simboliza melhor isso do que as crianças. Um cristão adulto, orgulhoso e autossuficiente, não imita o senhor Jesus, que se humilhou e confiou no Pai até a morte, e morte de cruz. (*) É diácono.