Opinião
Um alerta a mais
Somos todos testemunhas históricas da catástrofe que se abateu sobre o Japão nos últimos dias. E, para mim, são exatamente tragédias como estas que justificam a desesperada e, às vezes, inocente tentativa humana de dominar a natureza em sua beleza e fúria. Não é à toa que a compreensão humana sobre a natureza, desde o homem pré-histórico, foi pouco a pouco se modificando, deixando de lado a visão de natureza-mãe para vê-la como madrasta, que em vez de acalanto, pode causar dor. O raciocínio simplista de que somos responsáveis não é prioritário. O que podemos nós, humanos, limitados e indefesos, diante de algo tão grande e forte, capaz de destruir vidas, famílias, indústrias e cidades? Diante de tanta tristeza, lágrimas e lamentos, a única saída parece ser a solidariedade e a união dos povos de todo o mundo. Vivemos um novo alerta da natureza, corremos perigo de radiação nuclear, mas muitos raciocinam que o problema está no vizinho ? no outro lado do planeta ? e que nada nos atingirá. Raciocínio de pântano, digamos, de águas mortas contaminadas pela indiferença. O homem faz o que não controla. Cria energia atômica, nuclear, afirma-as seguras, porém os centros de distribuição não resistem a tsunamis e terremotos. Vazamentos atômicos, colapsos nucleares, exposição a radiações, e vamos correndo corrigir as imperfeições. Mas, como em todo drama humano, há uma renovação de forças que nos diz que não podemos perder a esperança de um novo recomeço, mesmo que a situação pareça sem saída. Vale refletir: que herança estamos deixando para os nossos filhos, netos e bisnetos? Como, afinal, estamos escrevendo o futuro? Lembro o escritor Gabriel Garcia Marquez, Prêmio Nobel colombiano, que diz: ?A vida não é aquela que a gente viveu, a que a gente recorda, e sim como recorda para contá-la. Ao contemplar uma semente estou certo de que um pomar descansa em seu íntimo.? Aliás, tem uma máxima chinesa que diz que a hora mais escura da noite é justamente a mais próxima do amanhecer. E mesmo que o amanhecer ainda pareça distante, percebemos do lado de fora desse inferno terreno, pequenos milagres que nos mostram que vale a pena tentar. São exemplos de infinita solidariedade. Agora, resta-nos unir as forças e torcer por dias melhores aos nossos irmãos japoneses, lembrando que as bombas atômicas ofereceram ao mundo Hiroshima e Nagasaki uma destruição sem precedentes e que a força nipônica soube revertê-la em desenvolvimento e prosperidade. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.