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Opinião

O drama de admitir o erro

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Em meio ao turbilhão de informações em torno da tragédia vivida pelo Japão, com terremoto, tsunami e catástrofe nuclear, algo simbolicamente forte aconteceu no âmbito do governo japonês e que, diante das circunstâncias dramáticas, transitou naturalmente com discrição no circuito da mídia: a decisão do primeiro ministro Naoto Kan de reconhecer falhas tecnológicas para conter a escalada do desastre, a partir do fenômeno natural. Ao mesmo tempo, o líder japonês pediu ajuda internacional e admitiu a necessidade de fornecer o máximo de informações detalhadas sobre as usinas nucleares, fato que não vinha acontecendo. O que se pretende refletir aqui é acerca do ato de reconhecimento do erro, sobretudo no gerenciamento da coisa pública. Há uma cultura ainda estupidamente arraigada, que sobreviveu ao longo dos tempos, especialmente em ambiente autoritário e desprovido da livre expressão de pensamento, segundo a qual o governante deve permanecer imune ao fato de ter errado. E, diante daqueles eventualmente cometidos, todos os esforços serão infligidos com vista à blindagem do mandatário. Certa feita, o saudoso senador Teotônio Vilela divagou sobre o tema e disse: ?os governos temem errar, e erram muito mais porque não ousam acertar?. Talvez seja por isso o fato de ter virado lugar comum a afirmativa de que governante raramente aprende com seus próprios erros. Pior, a maioria dessas autoridades advindas das urnas nem sequer reconhece os erros que comete. Quando o cidadão peca, quem aprende a lição é o próprio. No caso daqueles que utilizam a caneta e se isolam para decidir a sorte de todos nós, vale reescrever o ponto de vista do administrador e escritor Stephen Kanitz: ?O início da cidadania se dá com o cidadão reconhecendo as bobagens que cometeu e pagando por elas, em vez de tentar empurrar a responsabilidade, a conta e o prejuízo para o vizinho, o governo ou a próxima geração.? Se errar é mesmo faceta da condição humana, o gestor público termina claudicando duplamente ao não perceber, enfim, que pode ser alvo de solidariedade coletiva, quando os obstáculos são compartilhados de forma honesta e objetiva. Alguns erram por cultivarem a crença de que não estão errados; outros, irremediáveis, não sobrevivem fora do erro cometido na cafua do poder. Preferem sangrar no marasmo e na lentidão a admitir seus pecados. Já que a presença do erro proporciona o aprendizado, encerro com o verso do compositor Toquinho: ?A vida irá, você vai ver/ Aos poucos te ensinando/ Que certo você vai saber/ Errando, errando, errando...? (*) É jornalista.

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