Opinião
A humanidade despida
Na oração da via-sacra, prática espiritual comum entre os cristãos durante este tempo da quaresma, deparamo-nos, na décima estação, com a cena bíblica que nos apresenta Jesus sendo despojado de suas vestes: ?depois de os soldados crucificarem Jesus, tomaram as suas vestes e fizeram delas quatro partes, uma para cada soldado? (Jo 19, 23a) Essa imagem do Cristo despido revela a maior consequência do pecado humano: a desumanização, a perda da dignidade enquanto pessoa. O pecado consiste em um solene não a Deus, nada mais é do que um fechar-se em si mesmo, assumir-se como medida de todas as coisas. E não se pode dizer não a Deus, sem perder as referências éticas Daquele que é o autor da verdadeira vida. Jesus ao assumir a condição humana, mesmo sem ter pecado, sofre as consequências de uma humanidade cega por causa do fechamento para Deus, uma humanidade que considera muitas vezes o que é mal como um bem. Uma humanidade que faz do ser humano objeto de espetáculo, instrumento de soluções políticas e religiosas, uma vez que já não vê mais o homem em referência ao Criador, como um ser que traz as marcas do Eterno. O Cristo despido, portanto, é sinal eloquente, clamando à conversão. Exemplos dessa humanidade despida, cujo símbolo é Cristo despojado de suas vestes, encontramos hoje em duas situações bem concretas e diversas. Primeiro, a questão da dependência química. Há por trás dela, como todos nós sabemos, uma grande indústria, que enxerga nos usuários, não pessoas, mas consumidores fadados à destruição. E quanta vida roubada em seus trajes de dignidade, quantos projetos dilacerados, quantas famílias destruídas, filhos e pais martirizados inocentemente como Jesus. O pecado, o desejo pelo dinheiro e pelo poder, é feio e atual, corroi a veste da dignidade humana por dentro, desfigurando-a. Outro exemplo, bem diferente, mas cuja causa é a mesma, é a moda frenética dos chamados ?reality shows?. Ali as pessoas são expostas em situações adversas, mesmo um simples confinamento, para gosto e espetáculo do público. E o mesmo respeitável público diverte-se, vota e faz apostas, diante de relações fugazes, diálogos chulos e disputas mesquinhas. Eis a humanidade arrancada de sua veste de gala: a dignidade, e colocada à mercê do voyerismo desenfreado. Tudo isso nos recorda a necessidade de uma mudança radical em nosso modo de compreender o ser humano, recolocando-o diante do autor da Vida. Somente diante Dele, redescobrimos quem somos, ou seja: convertemo-nos. E uma vez convertidos, combateremos todas as formas de degradação humana. (*) É diácono ([email protected]).