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Opinião

A febre do escrever

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Fernando Pessoa afirmou certa feita que escrevia o que sentia porque assim fazendo, diminuía a sua febre de sentir. Pois é... O desejo e a necessidade de escrever é como fogo ardente manipulando as entranhas do seu autor, é água desgovernada escorrendo rio abaixo. Escrever é desabafo em forma de letras, mas pode significar também um expurgo de ideias ou a explosão da mente em busca de uma ação inovadora. Existem os que, à falta de ideias, esperam apenas uma oportunidade e vêem esta surgir quando um tema lhes incomoda ou dele discordam. Assumem então a postura do reagente furioso e com discurso ferino passam a exercitar a crítica esgrimindo sua reação como se desejassem um duelo de ideias. Sei que faz parte da mística do escrever, mas às vezes me pergunto por que não falar a própria linguagem ao invés de apenas reagir quando diante de alguma discordância. Afinal não somos autômatos programados a seguir um roteiro fundado apenas em reações ideológicas, pessoais ou tantas outras, esquecendo as verdadeiras razões pelas quais é prazeroso escrever. Talvez seja melhor silenciar quando nada de novo ou de útil se tiver a oferecer ou como bem o disse Manuel Pinheiro Chagas em seu ?Bom-Senso e Bom-Gosto? (1865) comentando missiva que Anthero de Quental dirigira a Antonio Feliciano de Castilho ?a carta, abstrahindo da verrina indigna do sr. Anthero do Quental, revela um verdadeiro talento, infelizmente para o seu author. A unica desculpa, que tem quem põe cabelleira, é ser calvo?. Será a vaidade, um dos mais tóxicos venenos a consumir aos tolos, a motriz deste desejo? Afinal de contas a criação de um texto passa muitas vezes por uma depuração de idéias que nem todos estão dispostos a se submeter. É bem melhor aproveitar o momento em que o bolo está pronto para ser assado! Como disse Erasmo de Roterdã em seu Elogio da Loucura referindo-se aos juristas, ?eles julgam-se os maiores de todos os sábios, e nenhum mortal se admira tanto quanto eles (...) quando amontoam glosas sob glosas, citações sobre citações, fazendo assim o vulgo acreditar que sua ciência é uma coisa muito difícil.? A febre do escrever é prazerosa, mas também pode representar um penoso exercício quando estribada na pura dissensão ?sem eira nem beira?. É preciso desnudar a alma, expor sentimentos, confessar o próprio âmago, aproximar sentidos e, por que não, sentir e polemizar. Mas com criatividade! (*) É promotor de Justiça e professor da Ufal.

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