Opinião
Na contram�o
A depender da reação negativa de boa parte da sociedade e até mesmo entre sua base aliada, o governo Temer terá muita dificuldade de aprovar o projeto de reforma da Previdência da forma como foi encaminhado ao Congresso. Ontem, milhares de trabalhadores saíram às ruas em todo o País para protestar contra a proposta que endurece as regras para a concessão das aposentadorias. Temer insiste em afirmar que seu projeto visa evitar que o Brasil siga o caminho de outros países que, por não se prevenirem dos gastos excessivos com as aposentadorias, tiveram de fazer cortes de grandes proporções, chegando inclusive a reduzir salários de pessoas na ativa e aposentados. Entretanto, é difícil convencer a classe trabalhadora de que as mudanças propostas são para o bem de todos. A percepção geral é que elas limitam severamente direitos sociais e afetam de maneira irremediável a população mais vulnerável do País. O projeto desagradou até mesmo às centrais sindicais afinadas com o Planalto, que rejeitam várias das novas regras, entre elas a idade mínima de 65 anos, considerada muito alta, a ausência de um modelo menos rígido para as mulheres, que costumam receber salários menores e enfrentar jornadas duplas, e a imposição das mudanças aos trabalhadores na ativa. O critério etário escolhido para estabelecer quem será atingido pelo novo modelo também incomoda. Segundo a proposta, um homem com 49 anos e 11 meses seria obrigado a trabalhar até os 65 anos para ter acesso à Previdência, enquanto outro com pouco mais de 50 anos seria incluído em uma regra de transição e permaneceria na ativa por 50% do tempo restante ao que faltava para se aposentar. Parece haver consenso de que há necessidade de aperfeiçoar o atual modelo previdenciário brasileiro e corrigir distorções. Muitos países estão fazendo isso, preocupados sobretudo com o envelhecimento da população. Entretanto, ao não levar em conta as diversas realidades do trabalhador brasileiro, o governo Temer passa um recibo de grande insensibilidade e empurra sua popularidade para mais fundo. Se insistir no projeto como está, vai lhe restar apelar para o famigerado fisiologismo para garantir os votos necessários, mas, em período pré-eleitoral, nem todos os parlamentares se arriscarão a dar seu sim a um projeto tão impopular.