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Opinião

O nevoeiro que cega

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Há um filme relativamente recente ? de 2008 ? intitulado ?O nevoeiro?. Trata-se de uma adaptação do livro de Stephen King ? The Mist no original. Nele, deparamo-nos com a seguinte situação: uma tempestade cai sobre uma cidade. Segue-se a esta um forte nevoeiro. Grande parte dos habitantes, inclusive o protagonista e seu filho, ficam refugiados em um supermercado. A partir daí, os personagens vão percebendo que há algo misterioso e ameaçador na névoa densa lá fora. Mas não somente isso. Dentro do supermercado, as relações se tornam tensas e tão perigosas quanto o que há lá fora. Envolto às trevas provocadas pelo nevoeiro, as pessoas não conseguem enxergar além delas mesmas. A escuridão as ameaça e as impede de pensar diferente, de encontrar outro caminho que salvaguarde as suas vidas. É o estopim para a manifestação do fanatismo religioso, das intrigas mesquinhas, da incompreensão, do egoísmo e do ?salve-se quem puder?. A impossibilidade de enxergar leva ao desespero extremo, leva à morte, ao suicídio ? marcante no final do filme-, a incapacidade de perceber vida para além dos nossos próprios olhos. Na nossa vida, às vezes também recai um grande nevoeiro. Em tais situações, não conseguimos encontrar soluções. E a falta de sentido, conseqüência dessa cegueira, faz aflorar em nós tudo o que há de mais negativo: as nossas más inclinações, os desejos mórbidos. Que caminho tomar? Aliás, há outro caminho, outro jeito de interpretar a nossa vida e a vida do mundo? Não somente a nossa história pessoal, em certos momentos, jaz em trevas. O mundo como evento coletivo também se encontra em escuridão. Ou não será o grande nevoeiro da ditadura do relativismo ? não há valores absolutos ?, do hedonismo ? o prazer como fim ? que impede as pessoas de verem ou de viverem de outro jeito? Pensar diferente, ver de outra forma, nunca foi tão difícil como nos tempos atuais... No Evangelho de domingo passado, Jesus nos apresenta que é preciso possuir um outro olhar: o da fé (cf. Jo 9,1-41). Ao encontrar o cego de nascença ? símbolo da humanidade decaída ? Jesus faz lama com sua saliva, coloca-lhe nos olhos e ele começa a enxergar. O verbo de Deus se fez carne, membro da raça humana, mergulhou na lama da nossa cegueira, para reorientar todos os nossos desejos, pensamento e afetos. A luz interior trazida por Jesus, a fé, reabre horizontes, ao dar-nos a capacidade de ver a vida segundo os critérios de Deus. Há, portanto, outro caminho, que nos permite conectar a nossa história pessoal e do mundo ao grande projeto de Deus: a salvação, o novo jeito de olhar. Basta-nos dizer como o cego: ?Eu creio Senhor?. (*) É diácono.

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