Opinião
Perseveran�a na luta contra o c�ncer
Otto Lara Rezende, um cronista de minha admiração pessoal, escrevia: ?Três virtudes, a meu ver, elevam o homem: bravura, bondade e paixão pela vida?. Mesmo, com certo atraso, gostaria de tecer um comentário sobre a recente morte do ex-vice-presidente José Alencar. Pela sua coragem diante da dor e da enfermidade que o consumia ele serviu de exemplo de resistência e de vontade de viver. Se os homens não se contam pelo número e sim pela qualidade, Alencar cresceu na admiração dos brasileiros. Mas, há uma face dessa moeda que merece ser salientada: ele teve o direito de ser tratado nos melhores hospitais, com os melhores médicos e medicamentos, em condições de conforto e assistência. No contraste, milhões de brasileiros são vítimas de um SUS que não se afirma, e, muitas vezes, sem ao menos o SUS, em longas esperas, nem sempre recebendo os medicamentos necessários, nem sempre em leitos disponíveis. São aberrações da situação da saúde no Brasil que em nada condizem com a propaganda oficial. Esse contraste em nada diminui o valor da ação benéfica de Alencar, que sempre pregou a esperança. Foram 17 cirurgias em 13 anos de convivência com essa moléstia selvagem e ele não demonstrou revolta, desânimo ou depressão. Seria um ?marketing? de superação com imagem para o público? Assim pensei durante algum tempo. Entretanto, depoimentos de familiares e amigos afirmam que não; essa era a tônica de sua personalidade: pensamento positivo e ação operante. Nos momentos mais difíceis de sua trajetória pessoal encarou os vai e vem da doença sempre acreditando na vitória. Quando se falava em morte ele não fugia do assunto. Consolava a esposa e ria ao dizer que a morte, quando viesse, invadiria por engano a casa do vizinho; levaria o vizinho e ele viveria 120 anos. Sua palavra consolou milhões de brasileiros portadores de doenças graves incuráveis. O mundo que nos cerca é como um eco; reflete em substância o que lhe dizemos; as pessoas, também. Uma palavra de esperança enleva e melhora o astral, eleva o tônus vital. Um amigo portador de câncer contou-nos: ?Quando desanimo, quando a dor é aguda e me atormenta, quando entro em desespero, lembro a luta de José de Alencar, lembro suas 17 cirurgias e sua luta pela vida; meu ânimo é recobrado e revigorado?. Tombou uma árvore frondosa na floresta da existência humana. Rendi-me à sua coerência, simplicidade e firmeza diante do infortúnio. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.