Opinião
Homenagens e oportunismo
Há poucos dias o País comoveu-se com o desfecho da trajetória de um homem público que o povo brasileiro aprendeu a respeitar e admirar. José Alencar garantiu seu lugar na história política do Brasil com qualidades que deveriam ser básicas em qualquer cidadão com o mínimo de consciência cívica, muito mais naqueles que representam o interesse público através de cargos eletivos. Exemplo raro nos dias de hoje, sua atuação política foi marcada pela seriedade no trato da coisa pública e pelo compromisso com os interesses nacionais, através de uma conduta equilibrada e corajosa. Nunca hesitou em manifestar sua opinião na defesa das idéias em que acreditava, sempre de forma respeitosa, ainda quando isso representou divergência com a política praticada pelo governo do qual fazia parte. Mesmo nessas ocasiões, sempre ficou evidenciado o seu propósito de fazer prevalecer o interesse público acima de qualquer outro. Não bastassem esses predicados de homem público, o processo prolongado e desgastante de luta contra uma doença grave e fatal mostrou ao País também o seu lado humano e não menos admirável. Resistiu bravamente aos percalços da doença com uma fé e uma coragem inabaláveis, qualidade que também cativou o povo brasileiro. Pessoas como José Alencar têm o poder de nos revigorar para a vida, fazendo emergir a esperança de que nem tudo está perdido. E assim resgatamos a crença de que é possível fazer política de forma decente neste país. É lamentável que pessoas como o ex-Vice-Presidente da República sejam uma rara exceção no meio político. Nossos políticos, em sua maioria, têm outros interesses, bem mais urgentes do que o bem estar do povo que lhes garante os mandatos públicos a cada eleição. A única coisa concreta que os vincula à história de vida de José Alencar é o oportunismo das homenagens forjadas sob a medida da hipocrisia. E tivemos vários exemplos aqui mesmo em Alagoas. Desse tipo de discurso demagogo, bradado por pessoas que representam o exato oposto de tudo aquilo pelo qual viveu José Alencar, me vem a indignação e a constatação de que essas homenagens soam quase como uma ofensa, pois não passam de atos sem essência e que somente servem ao propósito de promoção pessoal e de ocultação de condutas impróprias que se tornaram rotina na vida política do país. A melhor homenagem que podem prestar ao cidadão brasileiro José Alencar, muito mais que palavras sem eco em um discurso estéril, é seguir o seu exemplo de homem público digno e comprometido com os ideais republicanos. Talvez, quem sabe, ainda dê tempo. O resto é oportunismo barato. (*) É juiz do Trabalho e professor universitário.