Opinião
Porto Calvo comemora 375 anos
A 98 km da capital, Porto Calvo, uma das mais antigas cidades do Brasil, guarda entre seus três platôs (formações geológicas que figuram em sua bandeira) o mistério de seu destino. O município é polo de colonização do nosso Estado, tendo sido palco de inúmeras e sangrentas batalhas no episódio da História conhecido como ?invasões holandesas?. Em 1575, o lugar era uma sesmaria repleta de engenhos de açúcar, a maioria de propriedade de Cristóvão Lins, desbravador alemão a quem a Coroa Portuguesa doou terras, engenhos e outras benfeitorias. A sesmaria inicialmente fora chamada de Santo Antônio dos Quatro Rios (são eles: Manguaba, Camaragibe, Santo Antônio Grande e Tatuamunha) e abrangia terras que vão de São Luiz do Quitunde até Japaratinga e Maragogi, passando por Matriz e Passo de Camaragibe e Porto de Pedras. Elevada de povoado à vila em 12 de abril de 1636 (quando foi batizada de Bom Sucesso, em homenagem à vitória do general português Matias de Albuquerque sobre os invasores holandeses). O nome da cidade é um enigma: segundo a história local e o que corre na internet, refere-se a um senhor calvo que construíra um porto às margens do Manguaba, que teria ficado conhecido como ?Porto do Calvo?. Pesquisadores da Ufal mapearam naquela região ancestral 17 sítios arqueológicos (incluindo ruínas de engenhos, senzalas e casas-grandes). Sabemos que há ainda muita coisa para se escavar, debaixo da cidade e no leito dos rios, mas, desde já, contamos com esse magnífico passeio natural e histórico que é navegar pelo rio Manguaba, saindo do antigo ?Porto das Barcaças? em Porto Calvo até a foz em Porto de Pedras. A natureza aí, felizmente, não foi destruída, ainda que os assoreamentos tenham diminuído a profundidade das águas, criando inoportunos bancos de areia ao longo do curso fluvial. As matas verdejantes, como aparecem no quadro de Franz Post e a despeito de desmatamentos, resguardam outrossim, entre seus pés de sucupira, o esplendor de nosso passado colonial. Em boa hora, o prefeito Carlos Eurico, o Kaíka, incentiva a navegação naquele fabuloso Manguaba, de olho no potencial turístico do passeio. Banhistas e mergulhadores da cidade vivem escarafunchando o leito do rio em busca de objetos ancestrais, como correntes e âncoras de navios, garrafas de bebidas e perfumes franceses, pedaços de faiança inglesa, moedas. Os pesquisadores da Ufal dizem querer voltar à cidade: quem sabe acham um túnel que a lenda diz existir sob os três platôs sobre os quais a urbe foi erigida. Turismo histórico e turismo ecológico ? que estão entre os ?turismos desejáveis? que, recentemente, no município vizinho de Maragogi, estudantes e mestres da Universidade de Ferrara (Itália), juntamente com autoridades estaduais e gestores da região, debateram para a elaboração de 45 projetos para a Costa dos Corais, incluindo Porto Calvo ?, escondem provavelmente o mistério de nosso destino em pleno século 21. É hora, pois, de deixar para trás a inércia comprometedora e arregaçar as mangas para pôr novamente esse notável município nos trilhos da História. (*) É advogado e professor de História.