Opinião
Inquieta companhia
A morte é uma personagem presente na maioria dos filmes, mas raramente aparece nos títulos, para não afugentar as pessoas. Quando Clint Eastwood, aos 80 anos, decidiu realizar um filme cujo tema era a morte, batizou-o de Hereafter, algo como ?daqui por diante?; no Brasil o título é Além da vida, um belo eufemismo para a morte. Filmes que retratam experiências de vida após a morte, porém, tendem a fazer sucesso junto ao público porque enfrentam o incômodo tema por uma perspectiva otimista, acalentando-nos da triste condição humana da consciência da morte. De fato, enquanto os animais só vislumbram a perspectiva da morte diante de sua iminência, nós, ainda criança, temos consciência de nossa finitude e esse anátema nos acompanhará por toda a vida. Há um livro de contos do mexicano Carlos Fuentes cuja temática é a morte; chama-se Inquieta Companhia. Observem que não se trata de uma companhia inquietante, no sentido de que ela provoca inquietação em nós, mas uma companhia inquieta, insatisfeita, que sempre parece querer mais, que não descansa nunca. Contrapondo Fuentes, José Saramago escreveu As Intermitências da Morte, onde o leitor é levado a encarar uma greve da dita cuja. Logo a alegria do povo é substituída pela preocupação do governo sobre o que fazer com os velhos e moribundos; o desemprego aumenta; médicos, hospitais, agências funerárias e empresas de seguro vão à falência; a previdência quebra; a igreja perde a autoridade porque o povo perde o medo; o mundo vira um caos. Para Isabela Boscov, ?o momento da morte é de extremo pavor e luta aguerrida. Para se impor a morte tem de arrancar a vida com violência e brutalidade, porque poucos de nós estão preparados para recebê-la?. É verdade. Poucos têm a presença de espírito de Sócrates diante da morte iminente. Contada por Platão em prosa mais bela que poesia, conhecemos os últimos momentos daquele mártir da filosofia. Quando Sócrates pede a taça com cicuta, Críton protesta dizendo que o sol ainda não se pôs e que muitos têm tomado o veneno tarde da noite, após beberem, comerem e se deliciarem com os prazeres da carne. Sócrates, porém, aduz que nada lucraria adiando o momento final; estaria poupando uma vida que já se acabou e só lhe caberia rir disso. Bebeu da taça com veneno. Suas últimas palavras foram: ? Críton, eu devo um galo a Asclépio; vais te lembrar de pagar essa dívida? (*) É promotor de Justiça da Fazenda Pública da capital.