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Opinião

A cruz da exist�ncia sem m�scaras

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Muitas vezes o Cristianismo é visto como um paliativo em meio às agruras dessa vida terrena. A fé cristã seria o sustentáculo dos mais fracos, daqueles cansados e fatigados, o ópio que propicia a conformidade sem questionamentos à realidade, tantas vezes cruel. Um cristianismo assim não mereceria a nossa credibilidade, até porque se trata de uma caricatura daquilo que realmente consistem a mensagem e a religião de Jesus. Voltemo-nos às suas palavras, ecoando às vésperas da Semana Santa, convidando-nos a descobrir Nele o caminho da vida verdadeira. Nos Evangelhos, reiteradamente Jesus chama-nos a assumirmos a nossa cruz e segui-lo (cf. Mt 16,24; Mc 8,34; Lc 9,23). Que significa isso? Sofrer com resignação tão somente? Seria uma explicação estreita demais e desonesta, tendo em vista a largueza da proposta do mestre. Quando Jesus nos convida a tomar cruz, conclama-nos a assumir a nossa vida na sua realidade mais concreta, sem máscaras. Somente pode ser discípulo de Cristo aqueles que não usam a religião como subterfúgio, fuga, alienação; quem olha para si, assume-se e se propõe a ser redimido. Quantas coisas desencontradas em nós precisam ser reorientadas, aceitas, exorcizadas; quantas realidades carentes de sentido! E somente consegue reorganizá-las, dar-lhes sentido, quem toma a cruz, segue o mestre, morre para si mesmo, para as coisas passadas, e ressuscita para uma vida nova. Nada mais realista do que a fé cristã. Por isso é tão libertadora. Jesus não propõe aos seus discípulos uma vida sem dificuldades. Seus discípulos não estarão dentro de redoma de fé, imune às investidas de uma cultura de morte ameaçadora da vida plena de todos os pobres mortais. Lembremo-nos aqui das palavras de Marta e Maria, dirigidas a Jesus, quando da doença - e posterior morte- de seu irmão Lázaro: ?Senhor, aquele amas está doente? (cf. Jo 11,3). Como pode o amigo amado do Jesus sofrer a dor e a morte? Justamente por ser amigo do Senhor, Lázaro é um testemunho vivo de que estar com Jesus não é garantia de vida fácil. Pelo contrário, os discípulos de Cristo devem proclamar diante do mundo: é possível, assumindo a cruz, viver, em meio às adversidades, com equilíbrio e justiça, na força da luz pascal. Quem assume a cruz de cada dia, escuta como Lázaro, encarcerado nos sepulcros da vida, a voz do Senhor: ?Vem para fora!? (cf. Jo 11,43b). E, ao ouvir tais palavras, os cristãos caminham na alegria e na esperança, confiando naquele que também disse, referindo-se ao recém - saído da tumba: ?Desatai-o, deixai-o caminhar? (cf. Jo 11,44b). Desatemos os nós que nos impedem de caminhar, e assumamos a cruz de uma existência sem máscaras. Somente assim resplandecerá em nós o homem novo, transfigurado no Espírito de Cristo. . (*) É diácono.

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