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Opinião

A s�ndrome da culpa de estar doente

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Longe de adentrar nos meandros das ciências médicas esta análise paira ao conceito semita de que os males do corpo eram o castigo espiritual. Assim tanto a infertilidade quanto a lepra eram tributadas aos desmerecidos por Deus. Mas tarde, em pleno século 12, só para se ter uma idéia, todas as doenças eram de causas espirituais. Num mosteiro, por exemplo, se algum frade adoecia, era-lhe permitido comer carne, mas ficava afastado dos sacramentos para penitenciar-se numa enfermaria por seu infortúnio. Antes de morrer fazia uma confissão pública, perante os seus irmãos de ordem, das suas faltas. O tempo passou e esta cultura de associação dos males do corpo à negligência espiritual nunca se apagou da memória coletiva. Veio a cisão do cristianismo e muitas das suas ramificações se encarregaram de modelar novo complexo de culpa aos seus fiéis. O mundo contemporâneo não viveu diferente mesmo quando a ciência atingiu o seu apogeu. No século 20 o advento da aids era considerado um castigo à prática homossexual. Em pleno século 21, a começar pelas últimas catástrofes mundiais, as homilias ganharam um tom apocalíptico, utilizado também pela imprensa mundial. Lembrando a voz de Conselheiro: ?O Sertão vai virar mar.? Prova de que o homem dificilmente alcançará um ceticismo pleno, como vaticina o pensamento pós-moderno. Corpo e espírito não estão juntos por acaso, um é a razão, o outro é a fé. E como dizia Santo Agostinho: ?É preciso ter fé para poder compreender.? Compreender, exatamente, o porquê do homem carregar a culpa de estar doente. Como se a moléstia em si não bastasse ele atribui o seu estado à ausência do plano espiritual, construindo uma nova síndrome engendrada na sua mente. O resultado é o crescimento da tristeza e um estado de morbidez que não se aplaca até a recuperação do plano espiritual, seja por intervenção religiosa ou pela simples compreensão de que as moléstias, assim como a chuva vêem para os bons e para os maus. Não é igual a Sodoma e Gomorra que se houvesse um único justo a cidade seria poupada do castigo. O fato é que estamos todos aqui em busca da felicidade. E esta felicidade possui uma enorme escala de preferências. O homem e somente ele é capaz de quebrar a harmonia entre a razão e o espírito. Afinal, cada um de nós vive um efêmero momento entre o nascer e morrer. E começamos a morrer a partir do momento em que nascemos. A própria ?salvação? do cristianismo depende da morte. (*) É escritor.

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