Opinião
Decib�is da desordem
Aos 51 anos, constato que apresento alguns problemas de sociabilidade e, por isso, cada vez mais distante de grandes grupos de pessoas. As caminhadas pela belíssima orla marítima de Maceió nos finais de semana são cada vez mais raras, pois o que representava oportunidade para conversa com minha companheira ou com amigo, tornou-se exercício de tolerância aos ruidosos equipamentos de som das barracas e dos veículos estacionados com o porta malas aberto e enorme caixa com alto falantes. A disputa entre os mal educados beira a insanidade, uma mixagem que ninguém consegue individualizar o que é tocado. Desavisado, concluo que é um problema típico de centros urbanos e resolvo fazer uma corridinha pela Barra de Santo Antônio e sou surpreendido pela competição de música de mau gosto com o choro de uma criança, só identificado pela expressão de horror do pequenino ser. Noite de sexta-feira, 1º de abril, participei da reunião dos alcoólicos anônimos ? AA que homenageava membro de minha família, que completava dois anos sem beber álcool, longo período de sobriedade. Do outro lado da rua, um bar com música ao vivo, mesas com muita bebida e casais dançando, comemorava noite de boas vendas e, possivelmente, de lamentos por não poder contar com a demanda confinada no grupo dos alcoólicos. Os alcoólicos em fase de recuperação vão para as reuniões partilhar emocionadamente suas experiências de vida, com relatos de perdas de bens, familiares, amores, autoestima, com voz embargada e que exige muita concentração para coordenar as ideias. Ali são renovados compromissos de evitar o primeiro gole e a consequente recomendação de não frequentar ambientes em que estejam vulneráveis às tentações do alcoolismo. No bar, a altura do som vai aumentando em razão direta com o grau de embriaguez dos frequentadores e invade a reunião dos sóbrios, que não se intimidam, mas sentem flagrante desconforto. É como se um empresário inescrupuloso resolvesse montar uma tabacaria em frente a hospital de tratamento de câncer. Os bravos anônimos lembram aos presentes que o álcool é válvula de escape que não resolve os problemas de ninguém; enquanto isso, no bar a música repete o refrão: ?eu vou beber pra resolver meus probrema... Bebe, negão!? Os sóbrios recomendam evitar os chamados gatilhos, condições favoráveis ao uso do álcool; no bar, Zeca Pagodinho, ícone dos cervejeiros, canta: ?se quiser beber eu bebo, se quiser fumar eu fumo...? As portas do ambiente da sobriedade, que devem permanecer abertas à espera do alcoólico que ainda sofre precisando de ajuda, são fechadas para que não entre o som do gatilho, com os decibéis da insensatez. (*) É delegado de Polícia Civil.