Opinião
Um conto de fadas
Sem dúvida, o casamento de um herdeiro direto do trono da Inglaterra tornou-se um show global. Especialmente o enlace entre Charles e Diana, em 29 de julho de 1981, logrou, em função do entrelaçamento das mídias modernas, o marco de primeiro espetáculo acompanhado ao vivo, mundo afora, de um principesco casório. Naturalmente o filho do então casal feliz, ao subir ao altar, carrega consigo, além do poder de atração do trono britânico, o grande carisma de sua falecida mãe. Por tudo isso, todos os passos da superprodução de hoje serão avidamente consumidos por incalculáveis multidões em todo o mundo. Por bons momentos, as imagens das violências e dos desastres globalizados, serão, mais uma vez, substituídas pelas cenas de contos de fadas. O misturar entre o sangue azul e o sangue vermelho acende nos corações e almas plebéias a ilusão do acesso democrático (e fácil) ao seletíssimo mundo dos reis e rainhas. Riqueza, poder, beleza, amor, paz, festa, são os elementos tornados aparentemente acessíveis a cada cena da via auspiciosa que, trilhada por William e Kate, será acompanhada polegada a polegada por todo o mundo através de todos os veículos de mídia. Nos bastidores desaparecerão notícias como a partidarização do evento do qual foram excluídos os ex-primeiros ministros britânicos do Partido Trabalhista e outras personalidades consideradas indesejáveis, como os banidos de Londres por suspeitas de intenções de ?melar? a festança. Não deverão conquistar destaque o protesto republicano, providencialmente deslocados pela liderança do movimento Republic para pontos não tão próximos das câmeras. Quem não sonha com uma vida de príncipe & princesa? A torcida generalizada é que o conto de fadas de hoje não tenha o final infeliz que se seguiu quase imediatamente ao show protagonizado por Charles e Diana há 30 anos.