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Opinião

O irresist�vel sup�rfluo

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A primeira vez em que estivemos em Londres, as portas de Bunckingham estavam obliteradas por um extenso tapete de flores que se renovavam continuamente. Fazia poucos dias que Lady Di tinha morrido naquele terrível acidente no túnel da ponte D?alma em Paris, onde alguns poucos dias depois ainda pudemos ver uma peregrinação de inconsoláveis admiradores de Diana, que ali depositavam buquês de flores empapados de lágrimas. Londres voltou a ser o centro das atenções mundiais pelo casamento do filho de Diana com a plebeia Kate. Charles, o suposto pai (observadores da Casa de Windsor afirmam que o noivo William é filho do impetuoso encarregado das cavalariças reais), ultrapassou o tempo médio de espera pelo trono e se fosse um personagem Shakespereano, como em Lear, certamente já teria usurpado o poder à custa do sangue da mãe Elizabeth. Segundo Victor Hugo, ninguém se aprofundou mais na alma humana. Mais de um milhão de turistas estiveram em Londres. Dois bilhões viram pela TV. Os hospitais públicos londrinos estão abarrotados e com filas, mesmo assim só 13% dos bem informados cidadãos britânicos são contra as regalias da nobreza. Estas regalias dificilmente seriam toleradas em pessoas sem sangue azul, mesmo que ocupantes do Gabinete governamental. Poucos parlamentos sofrem tantas mudanças de mando, premidos pela vigilante opinião pública, a maioria das vezes movida por denúncias irrelevantes. A realeza, tradição medieval européia, herdada dos romanos e dos antigos bárbaros germânicos, sobrevive aos tempos modernos, instalada em países europeus dos mais desenvolvidos. Embora desprovida de poder real, mantêm a transcendência do rei, pois, mesmo morto, não cessa aí o poder da linhagem, desde que seu herdeiro assumirá o trono e as regalias. O fascínio pela realeza não deixa de ser a sedução pelo poder absoluto, que a tantos encanta e a submissão ao Senhor Feudal, que se apossa do comando, que mesmo os regimes socialistas, supostamente voltados ao poder popular coletivo, de forma disfarçada sempre buscaram. Também é a sedução pelo supérfluo, pelo superficial, a recusa ao aprofundamento, à contestação. Quem resiste ao supérfluo e a fantasia?Quantos lêem Caras ao invés da Veja?Quantos lêem os editoriais dos jornais e não as colunas de fofocas? T.S.Eliot resume:? A raça humana/Não pode suportar muito a realidade.? Quem pode resistir à princesinha bonitinha, ainda mais se além de seculares tiaras e deslumbrantes vestidos, usa provocantes biquínis que estimulam as fantasias?E não foi o ferrenho anti-britânico Napoleão quem afirmou:? A imaginação governa o mundo?? (*) É médico.

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