loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

O g�nese da viol�ncia urbana

Ouvir
Compartilhar

Não é, simplesmente, a relação com o álcool ou com as drogas o principal fator da violência do mundo atual. Seria óbvio demais atribuir os fatos às circunstâncias vividas pelos personagens destas inúmeras tragédias. É preciso retroceder no tempo, quase a idade fetal, para buscar respostas para as transformações humanas. O homem deste século é outro. E não é por causa da tecnologia nem pelos avanços da ciência. É por si mesmo. Alguns paradigmas estão sendo quebrados pelo pragmatismo inevitável que nos sustenta. Não há tempo nem espaço para filosofia porque a verdade cartesiana deixou de existir. Quem é o que é? A cada dia nos assombramos com as revelações. Igual ao personagem ?Johnny o bravo? o ser humano virou protagonista de si mesmo num estilo que beira o narcisismo. O ser exclusivo! Preferencial! Reservado! Customizado! Solitário! Este último adjetivo, talvez demais. Mesmo com a intimidade compartilhada no site de relacionamento, o ser humano está só. Apesar de sua rede de relações corporativas em alta e de ter uma família invejável, vive para si mesmo reverenciando seu ego. Neste panorama está um fenômeno particular do terceiro milênio. O desejo de ser outra pessoa. É mais que a própria ?busca do tempo perdido? proustiano. É um momento de experimentação de uma nova realidade fora daquela que vive. É a busca de uma vida alternativa em um cenário cada vez mais surreal, mas sempre melhor que o seu. Ou, talvez, mais heterodoxo, em sintonia com a diversidade e com a permissividade dos tempos. Difícil é viver o paralelismo destas duas existências sem ferir a si e aos outros. Pior é que a segunda vida faz finta na real. E o homem quer mais e sempre mais. Num mundo onde as relações afetivas são substituídas pelas relações de consumo, a família não está no primeiro plano. É neste lapso de sentimento que a indiferença fecunda o ódio e este é alimentado, vorazmente, pelos desejos mais sinistros. Não é o carro novo que compra a falta de amor pelos filhos. Isto só tempera a consciência de quem faz. Não é a viagem ao exterior que revigora o casamento, mesmo chamando isso de ?segunda lua de mel?. É muito mais difícil voltar e consertar os estragos. É mais fácil mudar o cenário. Mudar a família. Daí por diante é, praticamente impossível prever os desdobramentos. As relações formais, ministradas pela lei são outra violência. Quando o sentimento é o que menos importa volta-se a relação de consumo. Nesta esfera não há uma ?segunda vida? mesmo trocando os personagens. (*) É escritor.

Relacionadas