Opinião
Os inimigos
Na outrora agência central do Banco do Brasil, situada no antigo bairro de Jaraguá, nesta capital, existia dois caixas, funcionários bastante conhecidos da sociedade alagoana. O primeiro, de temperamento comunicativo, mantinha diálogo com os clientes e se revelava muito prestativo. O segundo, de espírito reservado, não alimentava cumprimentos, era manifestamente concentrado em suas tarefas. Ambos desfrutavam de bom conceito perante a vasta clientela da instituição. Os anais da agência mostraram que durante o longo tempo de sua vida bancária, o segundo caixa, reservado e discreto, jamais perdeu nem um centavo. Nunca ocorreu nenhuma diferença de caixa. Fato especial, em uma atividade financeira de constante riscos. Ao se aposentar, durante as homenagens que lhe foram prestadas, o referido caixa-tesoureiro ao ser indagado sobre o segredo de sua longa eficiência profissional respondeu ?cada cliente que atendia no meu caixa, durante várias décadas de trabalho, eu o encarava como um inimigo?. Um ensinamento de precaução e de exemplar segurança para os que lidam com funções de responsabilidade. Proclamou que o desempenho profissional exige permanentes atenções,para evitar surpresas e assegurar resultados confortadores. O mundo das finanças registra no elenco de seus desafios, um tipo de ousadia inteligente. Os destemidos empreendedores que se tornam inimigos das crises. Pessoas destacadas que encaram as dificuldades e as transformam em razões de criatividade e decrescimento. A dramaturgia contemporânea, politicamente encenada,construiu a célebre sentença de que ?os inimigos não mandam flores?. Não devendo assim serem esperadas mensagens de alegrias mas atitudes surpreendentes, por parte daqueles que disputam espaços e emoções na arena da vida. Um dos escritores fundamentais do mundo contemporâneo Bertolt Brecht advertiu em célebre quadra, marcada por intrigante ironia,?quem tem fome e te rouba o último pedaço de pão, chama-o de inimigo / mas não saltas ao pescoço do teu ladrão que nunca teve fome?. A sabedoria oriental, de alma profunda e contextualizada na busca do triunfo da harmonia, julga o inimigo como um bravo componente do jogo da sobrevivência. Um personagem necessário dos caminhos que levam ao aperfeiçoamento individual. Os adversários integram os diversos cenários da realidade humana. A percepção de seus interesses e as armas da inteligência limitam o território de suas ações. Todos lutam para torná-los menos significativos no curso vitorioso dos embates da existência. (*) É advogado.