Opinião
Graciliano Ramos e a administra��o p�blica
Ao redigir seu famoso Relatório ao governador Álvaro Paes, em 1929, Graciliano Ramos, então Prefeito de Palmeira dos Índios, registrou, com o estilo que fez dele um escritor imortal: ?Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis?. Além de fazer referência ao traçado das estradas abertas pela municipalidade, o autor de ?Vidas secas? ministra uma verdadeira lição de vida: quem tem a responsabilidade de comandar, deve andar sempre para a frente, evitando os atalhos - a menos que o desvio se imponha por força da conjuntura, como inevitável correção de rumo. A administração pública moderna, acrisolada pela Constituição de 1988, ganhou sopro principio lógico, cujos efeitos, conquanto não tenham logrado conscientizar ainda a maioria dos seus representantes, emblemaram inegável avanço no combate à improbidade administrativa e à violação do erário. A questão da eficiência e da moralidade sempre foi considerada um tabu no serviço público. Disseminou-se em nossa cultura a noção de que a gestão pública em geral padece de males quiçá incorrigíveis: o péssimo atendimento, o desperdício, a improbidade e a ineficiência. Obviamente esse rótulo incomoda os administradores leais ao pacto republicano, comprometidos com o resultado de seu trabalho social, assim como Graciliano, que aconselhava: ?Evitei emaranhar-me em teias de aranha. [...] Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta?. É possível identificar as mazelas que corroem as bases desse ideal que tem na eficiência e na moralidade o evangelho do servidor público. Uma delas se reflete na falta de continuidade administrativa, responsável pelo abandono de iniciativas louváveis em razão da mudança de nomes. Medidas relevantes, adotadas após laboriosos estudos, aptas a gerar condições de progresso, perdem-se nos labirintos da burocracia e do descaso, comprometendo a produção de benefícios que poderiam ser alcançados. O substituto assume o cargo embalado por ideias inovadoras, menosprezando realizações já em curso, logo depois lançadas nos arquivos mortos como trastes do passado. O mesmo destino aguarda seus próprios projetos, desprezados pelo sucessor, cuja sorte não fugirá à triste rotina ? e com essa prática diuturna o esforço criativo e construtivo dos administradores e os recursos do erário caminham lado a lado em direção ao desperdício. Não foi à toa que Graciliano advertiu: ?O principal, o que sem demora iniciei, o de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração?. Ordem no sentido de dar sequência aos planos estratégicos em estudo ou em andamento. Afinal, Natura non facit saltum. Assegurar a continuidade administrativa em todos os níveis depende de planejamento. Com isso se reduz o estresse laboral e se aumenta a produtividade e a eficiência. O planejamento de longo prazo, concebido sob o critério da participação coletiva, afasta os fantasmas da imoralidade e da improbidade no seio da administração pública brasileira. Volto à lembrança do Velho Graça. Disse ele: ?Há quem não compreenda que um gesto administrativo seja isento de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisa tão simples como quebrar as pedras do caminho?. Digo eu: as pedras estão aí para construir a estrada reta e duradoura por onde toda a sociedade haverá de caminhar... (*) É procurador-geral de Justiça.