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Opinião

Solidariedade com amigos distantes

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Busco palavras adequadas de consolo e solidariedade e não as encontro. A tragédia é extensa. Lembro Graciliano, em sua habitual síntese: ?A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer.? Nesta manhã amanheci abatido em meu sentimento. Procuro uma definição de palavra mais ampla, mais à altura das turbulências que se entrelaçam em meu consciente-inconsciente, procurando compreender a catástrofe que se abateu sobre gente de minha amizade, lá nas bandas de Jacuípe e Jundiá e em vários outros municípios do Norte do Estado. E, na memória, vêm-me palavras do mestre Aurélio, que pela amplitude, enquadram-se em ocasiões as mais diversas. Assim o diz: ?As palavras são trens, navios, automóveis, asas de passarinho ou de avião, bota de sete léguas como aquelas dos contos da meninice, que nos transportam a velhos tempos, nos reacendem antigos amores, nos recompõem num abrir e fechar de olhos queridas e perdidas paisagens. Não só isto: viajamos nelas, e com elas, a terras ignoradas e remotas.? Recordo minhas andanças na região Norte quando, em duas ocasiões, fui candidato a deputado estadual. E, agora, Marta, amiga de muitos anos, está aqui conosco. Veio de longe, de Jacuípe, com muita dificuldade. Deixou para trás um rio encachoeirado, um rio que saiu do seu leito natural e invadiu sua casa, a casa de seus irmãos, de seus amigos, de seus conterrâneos. O rio é a rua. Conta como foi a angústia, em plena manhã, de ver o rio subindo, água invadindo casa adentro, e nada poder salvar, a não ser a própria vida. Solteira, funcionária pública, tinha um amor entranhado por seus objetos de uso pessoal, móveis e utensílios, e pela casa recentemente reformada. Suas lágrimas se irmanaram a de centenas de pessoas desabrigadas, desalojadas, dependentes de ajuda e do apoio de outrem. Reuni um grupo de amigos para testemunhar essa tragédia relatada por Marta, que de uma hora para outra, perdeu tudo aquilo que adquirira com suor e amor. Alguns familiares estão desaparecidos em fazendas no interior. A asa do tempo roçou sua emoção. Não faz muito tempo, por falta de estradas de ligação, para alcançar a cidade, as viagens eram feitas em estrada de barro, em meio aos canaviais. Lamentavelmente, são tragédias que se repetem; horas cruéis das muitas que viu o tempo em sua implacável romaria. Sofrimentos se acumulam. Acendem-se solidariedades por mais essa calamidade. (*) É medico.

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