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Quando o cego somos n�s

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No burburinho do Centro da cidade, transeuntes passam céleres, dividem espaços no anonimato, esbarram-se. Fortuitamente, um pedido de desculpa ressoa quase inaudível. Uma criança com seus passos curtos atrasa a caminhada da mãe que o adverte: ? Anda menino, senão te deixo aí! O menino não respondera, tinha a cabeça voltada para trás; sua atenção, certamente, foi dirigida para o som de uma música, cantada pelo acompanhamento de um pandeiro, tocado bem perto de sua pouca estatura. Um homem que olha para dentro canta e toca alegremente sentado no chão, em uma temperatura nada amena. Nitidamente, é notada a estranheza do menino àquela cena. Acomodado no solo quente, bem à luz do dia, enxerga-se a cegueira de um homem que deve ter passado de quarenta anos. Bem ao seu lado, uma garrafa com água. Em suas pernas, uma pequena cesta para receber a benevolência de ?enxergadores? que passam a todo momento. Raras vezes ouve-se o tilintar das moedas. Ali, ele executa um repertório musical de romances bem-sucedidos, aventuras e espertezas. Lá, é como em um espaço cênico, pensado e preparado para atrair a atenção. O homem que nada enxerga, parece não nutrir um ódio cego pela vida, bem ao contrário é um grande viajor, é indulgente com as circunstâncias. Tem uma malemolência, uma brejeirice, que denota humor descomunal diante da limitação visual. Parece crível em si, sem tortuosidades, sem cólera. Confere-se o direito de não arriar os fardos, de evocar a luz da razão para iluminar e depurar a sua existência, mesmo sem estímulos imagéticos, emerge da escuridão com firme apreço à vida. Demonstra não se curvar ao infortúnio, não obedecer às coerções. Atravessa limites, mostra que não se pode ser pleno, mas candente para entreverar com a vida. Nada lhe turva a visão interior; não há razão para cegar seus horizontes. Seu flagelo não faz vacilar suas certezas. Sua voz é gorjeio de uma ave livre, que ressoa seu imaginoso universo em construções frásicas vigorosas e ativas. Tudo isso encerra um certo mistério; como alimenta suas fantasias? É certo que há uma vida internalizada, pois como apaziguar um destino vítima dos sucessivos dias de escuridão? A cegueira não se constitui para ele em entrave à alegria. Permite sentir a vida em seu entorno de forma dócil e afável. Seu corpo cego é vivente e palpitante e não está apartado de nós e da sociedade. Ele age com uma força que magnetiza e é capaz de eliminar o germe dos preconceitos. Sua postura evoca a capacidade argumentativa de não se assujeitar às limitações. (*) É estudante de Jornalismo.

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