Opinião
A casa da palavra e a casa civil
Ainda ressacado de prazer pela grata e surpreendente assistência (clientes, amigos e familiares) ? que, literalmente, ?bombou? a Casa da Palavra- na noite de lançamento do meu modesto Janela de Vidro, sou provocado a escrever algo sobre o fato. O livro, como já foi dito, é uma coletânea de crônicas ? publicadas aos sábados na Gazeta de Alagoas, versando sobre temas do quotidiano, com alguma ênfase na política. São setenta textos desenvolvidos entre 2004 e 2005, sombrio período da política em que viria à baila, dentre outros esquemas pesados, um dos mais vergonhosos episódios da vida pública brasileira, o milionário Mensalão. Com respingos em Alagoas, os desdobramentos culminariam com a degola de cabeças coroadas do PT (Dirceu, Genoíno João Paulo et caterva), denúncia de quatro dezenas de suspeitos, inclusive o ministro da Casa Civil, o arrogante José Dirceu, apontado como o chefe da gangue. Se os fatos mereceram o repúdio da população, como matéria-prima para o cronista foram um pitéu. Por sinal, provando que no governo do PT não há monotonia na Casa Civil, essa pasta voltou a ser foco de notícias e comentários. Passadas as eras Zé Dirceu-Mensalão, Dilma Rousseff-Dossiês, Erenice-Pimpolhos, quem voltou a aprontar foi o meu colega médico Antonio Palocci. Vejam a ironia. Nós médicos, clínicos e cirurgiões, passamos uma existência implorando por um salário melhor, uma consulta mais digna, uma moradia razoável... e aí vem o sanitarista (o ?franciscano? da medicina), o escandalofílico Palocci, caladinho, na moita, e em quatro anos ?bomba? exponencialmente o seu patrimônio visível. A verdade é que ? sob a égide de Ricardo Nogueira ? a aristocrática Casa da Palavra também está muito longe de ser monótona. Consagrada como um dos ambientes mais nobres da cidade, lindamente vestida de noiva para o evento, estava perfeita. Nesse aspecto, Janela de Vidro nasceu em berço de ouro. Sem patrocínio de qualquer espécie (ah mordomias!), contou para a sua entrega ao público com a impecável organização da casa e a modulação inteligente e bem-humorada do experiente e inflamado comandante Nogueira. Memorável noite! Com direito a canjas dos cantores Madalena, Benedito Lins e Márcia Telma e da fala descontraída do orelhista Abynadá Liro, não é todo dia que se pode ouvir a palavra sensível, poética, precisa e concisa de uma Vera Romariz que, generosamente, prefaciou o livro e, estoicamente, disponibilizou-se a apresentá-lo. (*) É médico.