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Nº 5718
Opinião

O dom da palavra

DOM FERNANDO IÓRIO * Enquanto manifestação expressiva do pensamento livre, é a palavra admirável dom. Entretanto sua ambivalência, de logo, pode manifestar-se, como se mostra no dizer de Aldous Huxly: - pela palavra somos capazes de superar os animais

Por | Edição do dia 17/09/2002 - Matéria atualizada em 17/09/2002 às 00h00

DOM FERNANDO IÓRIO * Enquanto manifestação expressiva do pensamento livre, é a palavra admirável dom. Entretanto sua ambivalência, de logo, pode manifestar-se, como se mostra no dizer de Aldous Huxly: - pela palavra somos capazes de superar os animais selvagens e, muitas vezes, de nos reduzirmos ao nível dos demônios. Até hoje tem sido a palavra o patrimônio da humanidade. Na consideração de Eurípedes ela é o fio de ouro do pensamento. Como a árvore é a palavra. Plantamo-la, e ela cresce, amadurece e frutifica. Se esterilizamos a palavra, estamos bloqueando a vida. Foi a palavra o grande veículo de expressão e comunicação, entre os povos, no decorrer dos séculos. De geração em geração, não houve povo que não deixasse a sua marca e transmitisse seu patrimônio cultural, senão pela palavra. O próprio Deus, quando quis vir à terra e ficar entre os homens, tornou-se palavra: “O Verbo de Deus fez-se carne para habitar entre nós”. A palavra é força capaz de atrair e dirigir energias dispersas pelo Universo. Transforma-se em estruturas frásicas para convencer multidões; em conversação, para dar sabor ao diálogo, em silenciosos sussurros, para falar de amor, em carinho, quando brotam de lábios que amam; em notícia, nadando no mar das comunicações; em ofensa, quando procura chagar a pessoa do outro; em oração, na procura do diálogo com Deus. Com a palavra, rezamos, abençoamos, estimulamos, ensinamos, celebramos; com ela amaldiçoamos, ofendemos, destruímos, condenamos. O poder das palavras destrutivas é, deveras, assustador. Assim, a maldição pode provocar infecundidade, esterilidade, doença e todo tipo de miséria. As ofensas causaram muitas guerras e vinganças nos corações dos seres humanos. É expressão de um provérbio hindu: “Crânio do homem, que é que te causou a morte? Minha palavra”, respondeu o crânio. A palavra é força dinâmica capaz de gerar o bem ou o mal, a saúde e a doença, capaz de projetar alegria ou tristeza. Depende do uso que dela fizermos. Que os responsáveis pela formação das próximas gerações cuidem com esmero da palavra, esforçando-se por empregá-la, sempre, de modo conveniente e adequado. O escritor, filósofo e místico maiorquino, Ramon Llull afirmava que a palavra cortês é sinal de pensamento nobre. Então, a palavra chega a ser valioso veículo de amabilidade, bondade e sabedoria, podendo consolar, orientar e ajudar o jovem na procura do ideal. De outra maneira, essa mesma palavra, mal empregada, pode provocar profundo mergulho na degradação mais espantosa. A palavra dicionarizada é inofensiva, mas quando usada na estrutura frásica, como “parole”, é espantosa espada de dois gumes: chegando a curar ou podendo matar. Miguel Unamuno torna-se firme quando assevera ser nossa ruína falar muito e fazer pouco. De palavras de vida está necessitando a sociedade atual, de palavras que expliquem e esclareçam as coisas, que orientem e animem as pessoas, de palavras que consolem e confortem os desesperados, que abram novos horizontes aos abatidos, de palavras que semeiem a esperança num porvir muito melhor. O que, na verdade, nos arruina é falar mal, pois falar bem já é preciosa forma de fazer. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

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